O OBSERVATÓRIO ASTRONÔMICO DA PIEDADE


JOSÉ CARLOS VARGENS TAMBASCO
Mestrando em História – FAFICH- UFMG



       RESUMO: São estudadas as origens das idéias para a criação do observatório astronômico implantado na Serra da Piedade, no município de Caeté, hoje Região Metropolitana de Belo Horizonte. Em particular, suas origens são relacionadas com os estudos para a escolha do sítio de implantação daquele que viria a ser o Observatório Astrofísico Nacional, bem como às esperanças criadas entre os membros da Associação de Estudos Astronômicos César Lattes, de Belo Horizonte, após o acompanhamento do eclipse solar de 1947, a partir da cidade mineira de Bocaiúva. As gestões da comunidade belorizontina de astronomia amadorística junto ao governador Israel Pinheiro, bem como as ações deste último com as medidas concretas para a construção do prédio principal do Observatório Astronômico da Piedade, são também focalizadas.

       *Este trabalho, em versão bem mais condensada, foi apresentado em uma comunicação livre no XIX Simpósio Nacional da ANPUH, realizado no Campus da UFMG, em julho de 1997.



       INTRODUÇÃO

       (...) Tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que te encontras é uma terra santa

Exodo: 3,5

 

       Quando demandamos a cidade de Caeté pela rodovia que liga à BR-262, já bem próximo de lá chegarmos, acerca de sete quilômetros, encontramos o início da estrada de montanha que conduz ao pico da Serra da Piedade. Não haveria como errar: à direita, no trevo de junção das duas estradas, um monumento marcante convida o visitante a subir. Obra do arquiteto Alcides da Rocha Miranda, moldado no concreto bruto, imaginamo-lo como o próprio Cristo, braços abertos, saudando o visitante que chega ao sopé da serra portentosa.
       Aceitemos esse convite e subamos ao cume: ponto de descortino inigualável que, desde 1760, é considerado espaço sagrado. Local de aparições de Nossa Senhora, a piedade popular o transformou em ponto privilegiado de romarias, onde se eregiu uma capela à Sua devoção.
       Este alto lugar de peregrinações já foi objeto de estudos multidisciplinares por parte de professores da Universidade Federal de Minas Gerais. Realizaram-se nesses estudos abordagens sobre a história, a arquitetura, a geografia e a botânica da Serra da Piedade, completadas das atividades tecnológicas e científicas que também são, hodiernamente, aí produzidas como as atividades de proteção ao vôo comercial e militar na Região Sudeste do país, através das antenas do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo- CINDACTA e a pesquisa científica, conduzida no Observatório Astronômico da Piedade, centro de estudos de pós-graduação em Astrofísica, do Instituto de Ciências Exatas da UFMG.
       A nove de novembro próximo o Observatório Astronômico da Piedade estará completando 25 anos de sua inauguração, o que nos despertou para a pesquisa da sua trajetória, com o levantamento dessa história que será, também, uma evocação do trabalho de homens que impregnados do mesmo espírito daqueles outros aí presentes desde 1760, ainda que com os objetivos formais diferentes, buscaram fazer da Serra da Piedade um espaço da alteridade Cristã. E, durante nossa atualidade, na sua abertura para as profundezas cósmicas, realiza o espírito da Cidade de Deus porque, se nas antigas realizações na Serra da Piedade o amor a Deus foi levado até ao esquecimento de si próprio pelos seus construtores, atualmente, no Observatório Astronômico da Piedade, também não se praticou a Ciência na forma que leva o amor de si próprio ao esquecimento de Deus.

       1 DUARTE, Regina Horta (Coord.) Serra da Piedade. Belo Horizonte. CEMIG/UFMG. 1992. Particularmente ver nesta obra, o artigo de TÁRSIA, Rodrigo Dias. Astronomia p 113-25
      

1 – A Astrofísica em Minas Gerais

       A década de 1960 foi enormemente significativa para o ensino universitário no Brasil. Foi então que, estimuladas pela lei de Diretrizes e Bases, várias propostas de reestruturações e de reformas universitárias, algumas das quais bastante amplas, como aquela proposta pela UNE em julho de 1961, vieram à público. Foi então que se começou a pensar na integração ampla do ensino universitário à pesquisa e do estabelecimento de uma política de pós-graduação. A Universidade Federal de Minas Gerais foi daquelas que mais rapidamente aderiram às idéias reformistas da época. 2 O seu corpo discente participou com entusiasmo e criatividade daqueles momentos, que se prolongaram na criação do observatório astrofísico da Serra da Piedade.
       A Astronomia é uma ciência peculiar e instigante. Peculiar, porque os seus objetos de estudo não podem ser submetidos diretamente ao método experimental; instigante, porque a sua evolução está condicionada ao desenvolvimento dos métodos e dos respectivos instrumentos de observação. E, neste sentido, a Astrofísica, ramo da Astronomia que estuda a constituição física e química dos corpos celestes, não poderia ser desenvolvida senão após o completo domínio das técnicas fotométricas, espectroscópicas e espectrográficas além, obviamente, dos desenvolvimentos da Física Atômica, ocorridos durante o século XX.
       Até 1961, a Astronomia no Brasil era voltada para a Astrometria e a Mecânica Celeste; A Cosmogonia era praticada de um modo bem próximo ao da reflexão filosófica; a Astrofísica não era praticada porque, com os seus enfoques apreendidos da física e seus métodos fotométricos e espectroscópicos, exigindo telescópios com discriminação superior a um segundo arco, acoplados a instrumental avançadíssimos, era especialidade ainda distante da nossa realidade. Os seus registros fazendo-se chapas fotográficas adequadas aos comprimentos de ondas estudados, possibilitavam o entendimento da constituição elementar do sistema galáctico, bem como a avaliação das velocidades relativas das estrelas, com o que compunha o modelo de um universo em expansão, o que ainda não era bem aceito entre nós.
       Em 1961, por proposta do astrônomo Abrahão de Moraes, do Instituto de Astronomia e Geofísica (IAG), da Universidade de São Paulo, o Brasil se filiara à União Astronômica Internacional (IAU) e se integrara em programas de desenvolvimento de pesquisas de âmbito internacional.

       2 VEIGA, Laura da, et al. UFMG: Trajetória de um projeto modernizante. In: Revista do Departamento de História. FAFICH/UFMG. Belo Horizonte, nº 5, p.5-40, dez. 1987


       Desde 1962, o astrônomo Luís Muniz Barreto, diretor do Observatório Nacional (ON), trabalha entusiasticamente com vistas à introdução do estudo da Astrofísica no Brasil e, ainda naquele mesmo ano, recebe a adesão de Abrahão de Morais, que o instiga à imediata realização de seus planos. 3 Este seria o elo fundamental ligando o desejo da comunidade astronômica brasileira, no sentido da criação de um observatório astrofísico de caráter nacional, às reais possibilidades de sua criação, já que, necessariamente, um tal observatório deveria ser realizado com o aproveitamento máximo dos recursos humanos disponíveis no país.
       A comunidade astronômica brasileira, representada por suas instituições máximas de então, o IAG e o ON, elaboraram um plano de ação no sentido da construção daquele que seria o Observatório Astrofísico Brasileiro (OAB), observatório de grande porte, destinado aos estudos da classificação espectral de estrelas situadas no centro da galáxia, bem como o estudo fotométrico das estrelas variáveis de curto período. O programa delineava, entre outros itens, os tipos de instrumentos que deveriam equipar o observatório, as medidas para a preparação da mão-de-obra necessária à operação do mesmo e um plano de trabalho para a escolha do sítio mais conveniente à sua implantação.4
       A conseqüência imediata desse planejamento foi a vinda ao Brasil de uma missão de astrônomos franceses, composta pelos professores Jean Rösch, da Universidade de Paris VI e diretor do observatório do Pic du Midi; Jean Delhaye, diretor do observatório de Besançon e Roger Cayrel, chefe da seção de Astrofísica do observatório de Paris. O objetivo dessa missão era o de preceder aos trabalhos iniciais para a escolha do sítio de implantação do futuro observatório astrofísico brasileiro. Era um grupo particularmente experiente, tendo participado anteriormente da comissão, da qual Jean Rösch fora o presidente, para a escolha do sítio do Observatório Europeu Austral, sediado em La Silla, Chile.5
       Em 1964 criou-se, no âmbito do CNPq, a Comissão Brasileiro de Astronomia (CBA), constituída pelos astrônomos: Abrahão de Morais, do IAG; Lélio I. Gama e Luís Muniz Barreto, do ON e Fernando de Mendança , da então Comissão Nacional de Atividades Espaciais (CNAE). A CBA fora criada em fevereiro de 1964; em colaboração com o Serviço de Intercâmbio Técnico e Científico do Ministério de Negócios Estrangeiros da França , desde 1963, vinha tratando da vinda da missão dos astrônomos acima, missão esta que, em março de 1964, já se encontrava em atividades de reconhecimento aéreo da região sul-mineira.6 Realmente o relatório final da missão, assinado por Jean Rösch, o foi em maio de 1964, na estação termal de Bagnères-de-Bigorre, na França, e enviado ao Observatório Nacional logo após.7

       3Discurso de Luís M. Barreto, na ocasião da inauguração do Observatório Astronômico da Piedade. Assinala-se um equívoco de datas: Muniz Barreto indica 1964 como o ano em que recebeu a instigação. Contudo conseqüência desta instigação, em 1963 a missão de astrônomos franceses que faria os trabalhos iniciais da escolha de sítio para o OAB, já estava em contratação, como exporemos adiante.
       4Diretrizes para o desenvolvimento de um setor de Astronomia no Departamento de Física do Instituto de Ciências Exatas da UFMG. Novembro de 1968. Arquivo do Depto. De Física.
       5MELLO, Sylvio Ferraz. Escolha de sítio para o Observatório Astrofísico Brasileiro. Rio de Janeiro: ON/CNPq. 1982 p.5
       6SANTOS, Paulo Marques dos; TARSIA, Rodrigo Dias. O programa da escolha de sítio no Brasil e o Observatório Astronômico da Serra da Piedade, MG. In: Boletim da sociedade astronômica brasileira. N.1, ano 8: São Paulo: SAB, 1985 p.12
       7Observatório Nacional: Informação Interna, n-15; 15 de abril de 1969.


       Baseando-se nos dados climatológicos disponíveis no Serviço Nacional de Meteorologia, além das informações contidas no Atlas Climático do Brasil, de Adalberto Serra, a missão francesa orientou-se para a seleção prévia de sítios que se localizavam na região centro-sul de Minas Gerais. Vários locais foram indicados como passíveis de aproveitamento para a implantação do OAB, tais como a Serra da Boa Vista, em Araxá; a região de Patos de Minas; o Chapadão das Gerais; Diamantina, Pirapora e a Serra do Espinhaço.
       Em março de 1964, utilizando uma aeronave da Força Aérea Brasileira – um Douglas C-45 lotado no Centro Técnico de Aeronáutica – uma comissão composta por Jean Rösch, Abraão de Morais, Luís Muniz Barreto e Paulo Marques dos Santos sobrevoava os locais selecionados, seguindo um roteiro planejado: Poços de Caldas, Ribeirão Preto, Franca, Araxá, Patos de Minas, Pirapora, Vázea da Palma, Caeté e Belo Horizonte.
       Tendo como base a cidade de Belo Horizonte, uma Segunda fase do reconhecimento teve início imediatamente, agora com a utilização de uma aeronave emprestada pelo então governador do Estado, Magalhães Pinto. O grupo de visitantes, então constituído por Jean Rösch, Jean Delhaye, Muniz Barreto, Paulo Marques dos Santos e Henrique Wykrota, este último sendo o presidente do Centro de Estudos Astronômicos Cesar Lattes, de Belo Horizonte, sobrevoaram as serras de Itabirito, Ouro Preto, Caraça, Itambé, o pico da Samambaia e as serras do Cipó, de Mateus Leme e da Piedade. 8
       Numa triagem inicial foram selecionadas as serras da Piedade, de Mateus Leme, do Itambé e do Cipó, estas duas últimas apresentando, contudo, sérios problemas de logística.
       Por ser um local de mais fácil acesso naquele momento, realizou-se uma inspeção no pico da Serra da Piedade, durante a qual os visitantes se encontraram com o Reitor do Santuário de N.S da Piedade, Frei Rosário Joffily. Este os acolheu e fê-los conhecer a infra-estrutura local, dotada de água, energia elétrica e telefone. Contudo, um aspecto desfavorável se apresentava: o acesso ao pico, em estrada conveniente, terminava a três quilômetros da Igreja-Santuário, que se encontra no topo da serra, em seu trecho mais íngreme. As demais condições eram excepcionais, a montanha encontrando-se isolada, mas a uma distância de trinta quilômetros, em linha reta, de Belo Horizonte, o que recomendava um estudo mais aprofundado das condições meteorológicas locais.
       Decidiu-se iniciar ali os estudos de escolha de sitio, que eram inéditas no Brasil. Uma estação meteorológica experimental seria instalada; observar-se-ia e registrar-se-ia os fatores meteorológicos ocorrentes, que poderiam ser elementos fortemente restritivos para a implantação de um observatório astrofísico. Tais fatores restritivos se sujeitam a uma hierarquia de decisões que se ligam, em primeiro lugar, aos fatores meteorológicos; em segundo, aos fatores astronômicos e; em terceiro lugar, aos fatores logísticos.9
       Os fatores meteorológicos pesquisados diziam respeito à nebulosidade, ventos dominantes, temperatura, umidade, névoa seca e nevoeiros, condições encaradas não quanto aos seus valores absolutos de intensidade de ocorrência, mas da sua freqüência e persistência. Compreende-se a importância desses fatores quando atentamos para o fato de que, em um observatório, o tempo de trabalho já é reduzido, limitado ao período noturno; estes períodos ainda podem ser fortemente reduzidos pela ocorrência e permanência de nevoeiros e névoas secas. Exemplo marcante deste fato, o acompanhamento de 342 noites consecutivas na Serra da Piedade, indicou que apenas 167 (46,2% do total) seriam utilizáveis, fator importante a ser considerado quando se pensa na relação custo/benefício dos equipamentos a serem instalados.

       8Essa aeronave fora obtida por interveniência do dr. Henrique Wikrota, presidente do Centro de Estudos Astronômicos Cesar Lattes, de Belo Horizonte. Ver: SANTOS, P.M. dos; TARSIA, R.D. , ob. cit., p.13
       9Ibidem, p.11


       Por sua vez, os fatores astronômicos dizem respeito à qualidade das imagens obtidas no plano focal do instrumento de observação. São a cintilação, a extinção ou atenuação das imagens e o brilho de fundo do céu. Os dois últimos fatores são os mais importantes, a atenuação podendo ser causada pela presença de nuvens do tipo cirros , enquanto que o brilho de fundo é resultante da emissão de luz do entorno do observatório como, por exemplo, as luzes de uma grande cidade, que se refletem nas partículas de gelo em suspensão nas altas camadas da atmosfera.
       Finalmente, as limitações causadas pelos fatores logísticos: não se poderia pensar no investimento, elevado por si mesmo, do observatório e seu instrumental se, para realizá-lo, outros tantos investimentos fossem necessários, como em estradas, em energia elétrica, em saneamento, todos indispensáveis à permanência de uma equipe de observadores e administradores do patrimônio instalado.10
       A estação meteorológica da Piedade foi instalada e começou a operar em 10 de fevereiro de 1966; permaneceu até 11 de fevereiro de 1967, quando foi transferida para a serra de Mateus Leme ,11 .
       Para a implantação do OAB, nenhum dos sítios acima referidos se mostrou conveniente. A escolha final recaiu sobre o pico dos Dias, em Brasópolis, onde finalmente foi implantado aquele centro de estudos, no início da década de 80.
       Para a comunidade astronômica mineira, contudo, a Serra da Piedade revelou grande potencialidade para abrigar um observatório astronômico de menor porte, capaz de realizar pesquisas complementares àquelas que seriam desenvolvidas em Brasópolis. Contribuiria, assim, eficaz e rapidamente, para a formação de astrônomos pela UFMG, nos níveis de graduação e pós-graduação, o que seria a concretização do desafio assumido por Muniz Barreto desde 1963, além de ser a concretização do antigo sonho dos amadores da Astronomia, reunidos no Centro de Estudos Astronômico Cesar Lattes, associação de amadores que se fundara em Belo Horizonte, como decorrência da efervescência científica que foi o acompanhamento do eclipse total do sol, em 1947, na localidade mineira de Bocaiúva. 12
       Uma outra questão que surge: Porque as estações têm seus inícios nos solstícios e equinócios, ao invés de estarem centradas nessas datas?


       2 – A comunidade astronômica mineira e sua práxis

       O início dos trabalhos para a escolha do sítio do OAB implicava na formação de um grupo de observadores capazes de operar a contento as estações meteorológicas, dado que a atividade era inédita entre nós.
       Os dois primeiros observadores preparados foram o então estudantes de Física da UFMG, Rogério Carvalho de Godóy e outro jovem, não oriundo da UFMG, Paulo Cesar Bandeira, que foram inicialmente treinados no IAG, da USP. Imediatamente, passaram a operar a estação meteorológico da Piedade 13, sob a responsabilidade e supervisão de Paulo Marques dos Santos, pesquisador do IAG. Posteriormente, passaram a colaborar nessa mesma estação os acadêmicos da UFMG Rodrigo Dias Társia, Caio Márcio Rodrigues, Eduardo Janot Pacheco, Rogério Camisassa Rodrigues e Hipérides de Dutra Atheniense.14 Alguns desses acadêmicos cursavam a graduação em Física; outros, em Engenharia.

       10Ibidem, p.11-12
       11Ibidem, p.15
       12O Centro de estudos astronômicos Cesar Lattes foi fundado em Belo Horizonte, a 4 de março de 1954, pelo casal Henrique e Maria da Conceição Lanna Wykrota. Sucedeu a uma anterior Sociedade dos Amigos da Astronomia, fundada em 1947 pelo mesmo casal, que esteve presente em Bocaiúva, em 1947, onde prestou inestimáveis serviços de apoio logístico a algumas equipes estrangeiras. De tal ordem foi a sua colaboração que, ao regressarem, as equipes de astronômos suecos e russos, presentearam-no com as lunetas astronômicas com quais trabalharam. Em 29 de Dezembro de 1956 este Centro foi considerado de utilidade pública pela lei estadual número 1521. Aquelas lunetas se encontram, hoje, no museu da CEAMIG, Sociedade sucessora do CEA Cesar Lattes.
       13Estamos nos referindo, aqui, à estação meteorologica especificamente montada para fins de escolha de sítio. A advertência é oportuna porque, em primeiro de janeiro de 1953 fôra montada, alí, uma estação meteorologica de 3 Classe, do Ministério da Agricultura, para observações interessando às atividades agrícolas. Esta estação foi operada, por algum tempo, por Frei Rosário Joffyli, colaborando com o referido ministério.
       14Outros nomes participaram do programa, mas integrados em outras estações que não a piedade. Ver a respeito: MELLO, S. Ferraz. Ob. Cit., p.16. Ver também: MACIEL, J. A escolha de sítio do ponto de vista dos índios. In: Boletim da Sociedade Astronômica Brasileira. Volume 14, número 2. São Paulol, 1994.


       Eram bolsistas do CNPq, e em sua maioria, membros do Centro de Estudos Astronômicos Cesar Lattes.
       No momento em que se desenrolavam as atividades e gestões no sentido da criação de um curso de Astronomia na UFMG, o Centro de Estudos Astronômicos Cesar Lattes se encontrava em estado de atividades reduzidas, o que levou o grupo de acadêmicos comprometidos com os trabalhos de escolha de sítio a fundar uma nova entidade, com os mesmos objetivos que a primeira, e que foi denominada Sociedade de Estudos Astronômicos de Minas Gerais. Mas, não eram associações concorrentes, antes complementando-se reciprocamente. O traço de união entre elas sendo as figuras de Henrique Wykrota e sua esposa, a astrônoma amadora Maria da Conceição Lanna Wykrota, a grande animadora do movimento de astronomia amadorística em Belo Horizonte.15
       Henrique Wykrota, como presidente do CEA Cesar Lattes , atuara permanentemente na busca da resolução dos problemas iniciais enfrentados pela comissão de escolha de sítio, tanto na obtenção da aeronave que, por empréstimo do governo do Estado, realizou o primeiro sobrevôo da Serra da Piedade, quanto na atuação junto ao Departamento Estadual de Estradas de Rodagem (DER-MG) , para auxiliar na instalação da estação meteorológica da Piedade, com os melhoramentos necessários na estrada de acesso onde se localizou.
       Por outro lado, o entusiasmo dos alunos-bolsistas com relação às atividades astronômicas aumentava, certamente fecundado pelas reuniões na Sociedade de Estudos Astronômicos de Minas Gerais . Surgiu então a idéia de um passo mais amplo, que seria a criação de um curso de Astronomia, em nível superior, junto à UFMG. E, com tal curso, a criação de um observatório astronômico, situado na própria Serra da Piedade e ligado à Universidade.
       O próprio prof. Luís Muniz Barreto, inicialmente contrário a qualquer atitude que pudesse vir a dificultar a continuidade da criação do OAB, se vê contagiado pelo entusiasmo dos acadêmicos-estagiários e em particular, pelo entusiasmo de Rogério Carvalho de Godóy 16 , que lançou a idéia do Observatório da Piedade, por ocasião do encerramento da semana de estudos realizada de 28 de abril a 1º de maio de 1969, quando foram apreciados os resultados dos trabalhos até então realizados no programa de escolha de sítio, ocasião em que foi excluída a conveniência da implantação do OAB na Serra da Piedade 17 .
       Desde o início de 1968, o entusiasmo do grupo de alunos do Instituto de Física conquistara o seu diretor, prof. Francisco de Assis de Magalhães Gomes, que oficia ao Magnífico Reitor, historiando os recentes desenvolvimentos no campo da Astronomia no Brasil. Destacava a necessidade da UFMG firmar um convênio com o ON, o qual possibilitaria o trabalho participativo das duas instituições no programa de escolha de sítio para o Observatório Astronômico Brasileiro. Ressaltava, ainda, que o convênio cuja minuta era anexada ao ofício e submetida à Universidade, seria o primeiro passo para “que possamos criar com o apoio de outras instituições, o nosso curso de Astronomia e ingressar em um programa internacional do mais elevado interesse científico(...)”. E justifica: “(...) é sabido que a Astronomia é um dos campos mais avançados da investigação científica atual.” Em outra parte do ofício, demonstrando invulgar ânimo de realizações, o prof. Magalhães Gomes afirmava que o ônus desse convênio para a Universidade “(...) pode ser perfeitamente suportado pelos institutos que comporão o Instituto de Ciências Exatas e os benefícios para a Universidade serão altamente compensadores.18

       15Em 4 de Agosto de 1972 a Sociedade de Estudos Astronômicos de Minas Gerais e o Centro de Estudos Astrronômicos Cesar Lattes fusionaram-se, originando o Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais (CEAMIG). A ata da assembléia de fundação desta nova sociedade se encontra registrada no Cartório Jero Oliva, do Registro Civil de Belo Horizonte, livro A-24, fls. 196, número de registro 28808.
       16Entrevista de Rodrigo Dias Tarsia ao A. Em dois de março dee 1997.
       17GODOY, R. Carvalho de. Comunicação interna: Número 33. Rio de Janeiro: Observatório Nacional, setembro de 1969.


       A importância que o convênio com o ON assumia para o prof. Magalhães Gomes não era pequena, tanto que em 31 de outubro envia carta ao prof. Pedro Parafita de Bessa, então diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, informando-o sobre as últimas gestões realizadas quanto à questão da escolha de sítio para o OAB, bem como da proposição do prof. Luís Muniz Barreto, para que o Departamento de Física incluísse, no currículo de Física, como optativas, as disciplinas Astronomia Esférica, Mecânica Celeste e Astrofísica. Tratava-se de assegurar mais um voto, na próxima reunião do Conselho Universitário, para aprovação do convênio UFMG-ON.19

       18Ofício número 116/68, do diretor do Instituto do física ao Magnífico Reitor, em 16/08/68. O Instituto de Ciências Exatas estava para ser criado, como sugere este ofício, firmado não só por Magalhães Gomes, mas também pelos diretores dos Insttituos de Matemática e Química, professores Edson Durão Júdice e Herbert Magalhães Alves.
       19Cópia do original existente no arquivo do departamento de física. Notemos que no moento da emissão dessa carta, 31 de outubro de 1868, O Instituto de ciências Exatas já havia sido criado, pois que se faz referência ao Departamento de Física e não mais ao Instituto de Física.
       20O documento pertence aos arquivos do Departamento de Física; a cópia consultada não portava nenhuma assinatura ou outro sinal que identificasse o seu autor. Contudo, pelo seu detalhamento quanto às especificações dos equipamentos nele descritos, bem como pelos programas montados, podemos atribuir sua autoria a Luiz Muniz Barreto.


       Em 31 de dezembro de 1968, a Reitoria da UFMG comunicava ao diretor do Departamento de Física que o Conselho Universitário, em reunião de 20 de dezembro, aprovara o convênio UFMG-ON. O estado de espírito dominava o grupo interessado, traduziu-se no documento Diretrizes para o Desenvolvimento de um Setor de Astronomia no Departamento de Física do Instituto de Ciências Exatas, o qual fora datado de novembro de 1968. 20 Este documento orientou os primeiros passos do setor em 1969, sinalizando a especialização futura na Astrofísica; em particular, apontava para o estudo das estrelas variáveis (Cefeidas e RR Lirae) sem, entretanto, competir com os programas do Observatório Internacional Europeu Austral, instalado no Chile. As necessidades mínimas de equipamentos foram então definidas, embora revistas mais tarde, mostrando clara a intenção de se criar um observatório astrofísico de porte médio, porém mais equipado do que aqueles habitualmente encontrados em algumas escolas de engenharia, voltados para os estudos de Geodésia.
       Contudo, as idéias voltadas à criação do setor de Astronomia e, mais do que isso, da realização de um observatório astronômico que lastreasse com as consequências atividades práticas o próprio curso, além de possibilitar o desenvolvimento de um pós-graduação significativamente operante, já estavam presentes no grupo estagiários incumbidos da escolha do sítio desde o final de 1967, o que é comprovado pela existência de um croquis destinado ao pré-projeto do observatório, croquis este que foi traçado pelos arquitetos Ivan Teixeira e Celso Bretas, pertencentes aos quadros do DER-MG. Este croquis porta o carimbo da Comissão Brasileira de Astronomia, a sigla CMR-8 e a data de 17 de janeiro de 1968. Nele é perfeitamente reconhecível o local de implantação esboçado pelos arquitetos: o sítio onde hoje se encontra o Observatório Astronômico da Piedade.21
       O ano letivo de 1969 foi marcado, no Departamento de Física, pelo efetivo funcionamento do Setor de Astronomia. O programa de trabalhos para o ano acadêmico de 1969 foi organizado pelo ON, em conjunto com o Escritório para Minas Gerais da Comissão Brasileira de Astronomia. Foi calcado nas pontos seguintes: estudo do comportamento dos filmes e placas fotográficas disponíveis no mercado, em fotografia solar; estudo fotográfico contínuo das regiões ativas do sol, principalmente das manchas solares; estudo da radiação solar em várias faixas de comprimentos de ondas; determinação da curva de luz de algumas variáveis de longo período; tratamento e análise dos dados obtidos, em Minas Gerais, no estudo para localização do Observatório Astrofísico Brasileiro.
       Enquanto o último item do programa previsto pudesse ser realizado com o auxílio dos recursos existentes na Universidade, em termos de processamento de dados, os demais dependiam de um trabalho conjunto, seja com alguns equipamentos disponíveis na própria Universidade, e que seriam realocados ao Departamento de Física 22 , seja com um conjunto de outros equipamentos que seria emprestado pelo IAG. Por outro lado, o Departamento de Física já havia providenciado, junto à Prefeitura do Campus, a construção de um abrigo de teto móvel, capaz de receber as lunetas astronômicas que seriam realocadas.

       21O documento do arquivo do Departamento de Física, de 17/01/68.
       22Uma luneta astronõmica de 15 cm de abertura, fabricação da Zeiss, que pertencia ao acrevo da Escola de Engenharia e outra, tipo Questar de 10 cm de abertura, que pertencia ao próprio Departamento de Física.

       Os trabalhos programados seriam conduzidos pelos seguintes alunos de Física: Rodrigo Dias Társia, 4º ano; Rogério Carvalho Godoy e Roberto Vieira Martins, 3º ano; Rogério Camisassa Rodrigues, Maria Angélica Garcia de Carvalho, Luís Pompeu de Campos e João Filocre Saraiva, 2º ano. Excetuados estes três últimos, os demais contavam com alguma vivência nos programas e já eram portadores de cursos de especialização, realizados no IAG, no ITA e no ON. Quanto às atividades letivas, a 11 de fevereiro de 1969 o prof. Luís Muniz Barreto apresentara um programa de curso em Astronomia Esférica, que ele lecionara naquele semestre para o 3º ano de Física, convidando o aluno Rodrigo D. Társia para a sua monitoria. As cadeiras de Mecânica Celeste e Astrofísica seriam introduzidas em 1970, como constava da Exposição de Motivos do diretor do ICEx ao diretor do Departamento de Física, de 04 de fevereiro de 1969. Para o ano letivo de 1970 foi prevista a vinda de outros professores, para ministrarem cursos sobre as especialidades pertinentes, tais como Astrofísica e Mecânica Celeste. Tanto o Departamento de Astronomia do ITA, quanto o IAG, da USP, manifestaram grande interesse em colaborar com a UFMG. 23> Observamos que na Exposição de Motivos, de 4/02/69, o diretor do ICEx, prof. Magalhães Gomes, já afirmava:

       23O que foi demonstrado na visita do professor Sylvio Ferraz de Mello ao Icex em 21 de janeiro de 1969.
       24Magalhães Gomes referia-se a um acordo entre o Brasil e a Repúplica Democrática Alemã, gerido pelo Ministério de Educação e Cultura e que se referia à liquidação de saldos comerciais de que o Brasil era credor, através do fornecimento de equipamentops científicos fabricados na Alemanha Oriental. Houve um equívoco do professor Magalhães Gomes, referindo-se ele à Alemanha Ocidental pela Alemanha Oriental.


       (...)para 1970, a Universidade deverá contar com um observatório universitário a ser construído na Serra da Piedade pelo governo do Estado. Este observatório, cuja planta e orçamento estão prontos, terá suas obras iniciadas no segundo semestre do corrente ano, sendo o prazo de seu término até a segunda quinzena de janeiro de 1970. Com esse observatório a Universidade poderá ter um programa de importância e gabarito internacional sobre fotometria de variáveis de curto período e variáveis eclipsantes. Para tanto está sendo estudado um pedido através do Acordo Brasil-Alemanha Ocidental (Sic), a ser brevemente assinado, constando de um telescópio tipo Cassegrain de 600 mm, um fotômetro fotoelétrico com registrador de tres canais e um jogo de filtros para fotometria UBV.24
       É evidente que o diretor do ICEx aderira firmemente aos projetos há tanto acalentado pelos membros da Sociedade Astronômica de Minas Gerais. E, nesse gesto, era acompanhando não só pelo diretor do ON, como também pelo presidente do CEA Cesar Lattes. Para o prof. Magalhães Gomes o Observatório Astronômico da Piedade já era uma realidade, distante das atividades universitárias apenas por uma curta duração do tempo, de meses. Afinal, não seria uma prova cabal da marcha irreversível desse projeto, o lançamento da pedra fundamental do observatório, na Serra da Piedade, em solenidade presidida pelo próprio governador, em 29 de setembro de 1968? 25]
       Uma questão alternativa, que se poria à UFMG em decorrência dessa nova alternativa científica, um observatório astrofísico, foi a questão do planetário a ser instalado no Campus da Pampulha. Este planetário fora anteriormente encomendado, no bojo do acordo Brasil-RDA, e era um equipamento de grande interesse para a projeção extra-muros da Universidade. Como tal, fora favoravelmente considerado pelo então Reitor, prof. Gerson Boson, que nomeou o diretor executivo do Conselho de Pesquisas da UFMG, o prof. Magalhães Gomes, como coordenador do programa de aquisição dos equipamentos oriundos do acordo. Face aos novos interesses que consideravam o equipamento para o futuro observatório astrofísico, o Reitor, de forma objetiva, deixa o critério do coordenador a escolha de uma dentre as duas opções que se apresentavam: o planetário ou o equipamento para o observatório astrofísico.
       Relata o prof. Magalhães Gomes que, além da elegância e coerência de sua atitude, o prof. Gerson Boson também dera o seu parecer favorável à escolha do equipamento para o observatório, justificando-o pelo alcance científico do projeto. Desse modo, o planetário que originariamente era destinado à UFMG, foi dirigido para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Santa Maria 26.

       25Jornal OPINIÃO de Caeté; Ano 2, Número 34, Outubro de 1968 - 1 quinzena. Em 29 de setembro de 1968 o então governador, Israel Pinheiro, em solenidade na Serra da Piedade, lançava a pedra fundamental do Observatório da Piedade. Na mesma ocasião ele inaugurou a estrada de acesso à capela de N. S. da Piedade, agora inteiramente asfaltada. Foi um evento altamente considerado pela igreja católica, muito mais pelo término da obra da estrada, a qual conferia nova dimensão às peregrinações àquele santuário, que pelo lançamento da pedra fundamental do OAP. Esteve presente às solenidades o Cardel D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, que oficiou Missa em Ação de Graças; também esteve presente o então prefeito de Caeté, Lincoln Franco de A
       26Carta datada de 20 de outubro de 1976, do professor F. de A. Magalhães Gomes ao Professor Manoel Lopes de Siqueira, Chefe do Departamento de Física. Arquivos do Departamento de Física.


       3 – A construção do Observatório da Piedade

       Foi, realmente, graças à ação dos acadêmicos de Física e membros da Sociedade de Estudos Astronômicos de Minas Gerais, além da própria Comissão Brasileira de Astronomia, em seu escritório de Minas Gerais, sempre apoiados pela ação eficaz do dr. Henrique Wykrota, que se deveu a construção das edificações do Observatório Astronômico da Piedade.
       Quando, em fins de abril de 1969, realizou-se em Belo Horizonte o Colóquio Brasileiro sobre a Escolha do Sítio, o prof. Luís Muniz Barreto já havia conduzido a uma entrevista com o então governador do Estado de Minas Gerais, Israel Pinheiro. Reafirmou-lhe, então, as mínimas certezas necessárias à credibilidade da continuação do projeto. Em conseqüência, o governador ordenou o início das obras, que em fins de outubro já se encontravam praticamente concluídas, apenas aguardando as cúpulas e os acabamentos finais.
       No momento em que se concluíram as obras civis dos prédios, dadas as peculiaridades sob as quais eles foram conduzidas, apercebeu-se, a nível de administração estadual, não haver nenhum documento que oficializasse a aplicação dos recursos financeiros ali investidos. Em realidade, as obras foram custeadas peloas verbas de representação pessoal do governador, transcorrendo a ação à margem de qualquer controle orçamentário do Estado. Cumpria, pois, regularizá-la.
       Em carta datada de primeiro de outubro de 1969, oriunda do Observatório Nacional e assinada por Luís M. Barreto, dirigida ao governador Israel Pinheiro, oficializou-se em pedido para a construção do Observatório da Piedade, já que “a Universidade Federal de Minas Gerais vem de obter do Ministério da Educação e Cultura os recursos necessários à importação de equipamentos astronômicos de alta qualidade para a instalação de um Observatório Astrofísico na Serra da Piedade.”27

       27Carta ref. 104-D, Arq.10-Obsevatório Nacional: 1 de outubro de 1969. Cópia arquivada no Departamento de Física do Icex.
       28Arquivo particular de Israel Pinheiro. Belo Horizonte - MG.


       Contudo, o projeto de alvenarias para a obra já estava concluído desde fevereiro de 1968, data que consta nas plantas desenvolvidas no escritório de projetos do DER-MG, e que foram realizadas a partir dos estudos prévios do arquiteto Rafael F.Diniz Ribeiro. Este já discutira o projeto com o arquiteto Alcides da Rocha Miranda, do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, responsável pela não-descaracterização da Serra da Piedade, sítio tombado.
       Em 13 de setembro daquele mesmo ano, 1968, o DER-MG apresentara ao governador o orçamento da obra, avaliada em NCr$200.000,00 equivalentes, naquele mês, a US$ 54.644,80. A obra teria um cronograma previsto para a realização em dezoito meses e, com a inflação projetada para o período, o seu custo final orçaria em NCr$247.500,00. Estaria concluída em março de 1970 28.
       Contudo, a origem não orçamentária dos desembolsos para a obra impedia que a mesma fosse doada a quem quer que fosse, por razões de posturas legais. Desse modo, as verbas foram repassadas à Prefeitura de Caeté, cuja Câmara Municipal autorizou ao prefeito, então o sr. Jair de Carvalho, a aplicá-las na construção da obra e sua posterior destinação à instalação do observatório. A regularização da obra, agora tida como realizada pela Prefeitura Municipal de Caeté, que contratou a empresa de Rafael F. Diniz Ribeiro como construtora exigia, por seu turno, uma série de providências documentais, tais como o leiaute de implantação da obra, com a competente aprovação do responsável pelo Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN). Tal documento foi produzido e assinado pelos responsáveis a 30 de junho de 1971. Mas, para que a construção pudesse ser averbada no Registro de Imóveis e a Universidade pudesse ali instalar os equipamentos foi indispensável um contrato específico entre o usuário do próprio, o proprietário do terreno e o interveniente construtor. Este aspecto, bastante delicado, foi equacionado através de um contrato de comodato, autorizado pela Cúria Metropolitana de Belo Horizonte, entre o Santuário de NªSª da Piedade e a UFMG. Neste documento apuseram suas assinaturas, pela UFMG, o seu então Reitor, prof. Marcelo de Vasconcelos Coelho; e pelo Santuário, o seu Vigário, Frei Rosário Joffily; pelo interveniente-construtor assinou o então Prefeito Municipal de Caeté, Jair Carvalho 29.
       Esse contrato de comodato, assinado em 27 de dezembro de 1971, cuidadosamente elaborado para garantir e regulamentar todos os interesses que ali convergiam, merece um exame mais atento. Em primeiro lugar, a interveniência da Prefeitura Municipal de Caeté: regulamentada na cláusula 14 do contrato, deixa claro que aquela Prefeitura construiu o prédio principal explicitamente destinado à instalação do observatório; contudo, construindo-o em propriedade alheia, não mãos teria a posse sobre o mesmo, qual se transferia ao Santuário, proprietário dos terrenos. 30 Para não pairar dúvidas quanto a questão principal, dirimida na cláusula 14, a cláusula 13, superabundante em vista do que fora explicitamente na 14, relembra que o usuário do próprio, a UFMG, renunciaria expressamente a qualquer eventual e futuro direito de usucapião sobre a propriedade; e além disso, ela reconhece que não poderia realizar quaisquer modificações ou acréscimos às obras atuais sem o assentimento do Santuário (Cláusula 11). Impõe-se, nesta mesma cláusula 11, o respeito aos aspectos externos e paisagísticos dos locais, que sempre deveriam ser apreciados pelo DPHAN. As cláusulas 4, 5 e 6 garantiram o acesso do CEAMIG, ou outras entidades congêneres, ao observatório, desde que não prejudicasse as atividades de ensino e pesquisa. Estas últimas cláusulas evidenciam a preocupação de Frei Rosário Joffily com a difusão do conhecimento científico aos quantos, buscando-o, afluíssem à Serra da Piedade.

       29Contrato de comodato entre a UFMG e o Santuário de Nossa Senhora da Piedade na data de 27/12/71. Arquivo do Departamento de Física.
       30Encontramos na carta enviada pelo professor Magalhães Gomes ao Manoel Lopes de Siqueira, em 20 de outubro de 1976, p. 3-4, referências que podem deixar dúvidas sobre a propriedade dos prédios. Nelas, parece ficar subentendido que a Prefeitura Municipal de Caeté doara os prédios à UFMG, o que poderia ser um desejo inicial dos interesaados, mas que não correspondeu ao desenvolvimento dos fatos.


       Retornemos, entretanto, à data de 11 de fevereiro de 1970, quando reuniram-se no ICEx, no Campus da Pampulha, os professores Magalhães Gomes, diretor do ICEx, Luís Muniz Barreto, diretor do ON, Márcio Quintão Moreno, chefe do Departamento de Física e o dr. Henrique Wykrota, presidente do CEA César Lattes, com a finalidade de apreciarem o estudo final dos dois prédios que ainda deveriam ser construídos no sítio do Observatório da Piedade: um, para abrigar o telescópio refrator, Coudé, que seria dotado de uma cúpula de três metros de diâmetro; outro, menor que o primeiro, abrigaria uma luneta do CEA César Lattes e sua cúpula seria construída por conta dessa entidade. Foi por todos reconhecido que os projetos satisfaziam plenamente aos fins colimados e, na oportunidade, o dr. Wykrota lembrou da conveniência de ser estabelecidos critérios sob os quais o CEA César Lattes poderia utilizar-se do auditório, existente no prédio principal, para suas atividades próprias.
       Em ofício de 20 de maio de 1970, do ICEx ao CEA César Lattes, se lê que, “Levando em conta os inestimáveis serviços prestados ao desenvolvimento da Astronomia em nosso Estado, pelo Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais(...)”31. e, consultado o Departamento de Física, este se manifestou de acordo em colocar as facilidades do futuro observatório à disposição daquela entidade, desde que não houvesse interferência com as atividades e trabalhos programados para o mesmo, atendendo assim o que era solicitado pelo presidente do CEA César Lattes.

    31Ofício número 361/70, do diretor do Icex ao presidento do Centro de Estudos Astronômicos César Lattes. Arquivo do Departamento de Física. Notemos que nesse documento já se usava a denominação Centro de Estudos Astronônicos de Minas Gerais (CEAMIG), denominação que somente se tornaria oficial após 04/08/72.


       O reconhecimento do trabalho do futuro CEAMIG para a realização do Observatório da Piedade também está expresso no ofício acima, no qual declara-se que nunca será demais ressaltar o papel relevante assumido por aquela associação, “não só na descoberta de vocações para a astronomia brasileira, como principalmente na atual fase de implantação daquele observatório .” O documento é concluído com o consenso de que o futuro CEAMIG instalaria uma luneta de 25 cm de abertura, de sua propriedade, no terreno do observatório e que esta seria “o núcleo do Observatório da Piedade.” Contava-se, certamente, com um considerável atraso no recebimento e na implantação do equipamento alemão, havendo a expectativa de que o CEAMIG pudesse implantar o seu equipamento muito rapidamente, tornando o OAP operacional desde logo.
       Os equipamentos para o futuro observatório foram adquiridos através do Ministério da Educação e Cultura, gestor do convênio Brasil-República Democrática Alemã. Foram fabricados pela empresa Karl Zeiss- aus Jena , e eram os seguintes: um telescópio refrator, tipo Coudé, com abertura de 15 cm, equipado com câmaras Solar e Astro ; um fotômetro de chama; um espectrógrafo registrador de três canais; dois teodolitos de precisão, para fins geodésicos; duas cúpulas para os edifícios do observatório, sendo uma de 5m de diâmetro e outra de 3m; várias oculares Huygens , o que por si só já caracterizavam a linha de trabalhos pretendida. O custo do equipamento, posto no porto do Rio de Janeiro foi de US$202.839,50, dos quais US$191.460,00 representava os equipamentos principais e, o saldo, para os acessórios.
       Esse equipamento, que deveria ter chegado ao Brasil e montado ainda durante o ano de 1970, somente o foi com um ano e meio de atraso.32 O final da montagem se deu em 23 de outubro de 1972 e a inauguração solene do observatório foi realizada em 9 de novembro seguinte.33

       32Os equipamentos chegaram a Belo Horizonte em 22/04/71, conforme informado pelo ofício número 190/71, do Icex para a Prefeitura do Campus. Arquivo do Departamento de Física. denominação que somente se tornaria oficial após 04/08/72.
       33O relatório do recebimento do equipamento montado foi assinado pelo professor José Bernardino Reis, então, vice-diretor do Icex, com a data de 30/11/72, o que poderia levar à crença de que a inaugaração fôra pró-forma, sem condições de operacionalidade. Contudo, essa data é corrigida através de memorando do mesmo professor, o qual esclarece a data real do recebimento: 23/10/72. A data anterior de 30/11/72, é a correspondente ao término da redação e envio do relatório de recepção, o qual, pelo visto, não preencheu os seus objetivos.


       À inauguração compareceram o ministro da Educação, Jarbas Passarinho; o governador do Estado, Rondon Pacheco; o diretor do Observatório Nacional, professor Luís Muniz Barreto; o diretor do ICEx, professor Francisco de Assis de Magalhães Gomes e outras autoridades políticas, militares e acadêmicas, notando-se, contudo, a ausência do seu realizador, Israel Pinheiro. Discursaram na solenidade, além do ministro da Educação, os professores Luís Muniz Barreto e Francisco de Assis de Magalhães Gomes.34

       34Em carta datada de 20/10/76 do professor Magalhães Gomes ao professor Manoel Lopes de Siqueira encontra-se uma referência à data da inauguração como sendo 09/12/72, o que é devido a um equívoco de datilografia. A data correta, 09/11/72, também é citada por por Santos e Társia, ob. Cit; p.18. Em um relatória semstral do mestrando João Carlos Azzi, relativo ao primeiro semestre de sua primeira bolsa de aperfeiçoamento, realizado no OAP, encontramos um registro relativo à data inicialmente escolhida para a inauguração: 15 de novembro de 1972. Sem dúvidas, a data era pouco propícia ao comparecimento das autoridades federais; por isso, ela foi antecipada em seis dias. denominação que somente se tornaria oficial após 04/08/72.


       Em 23 de novembro de 1972, o ICEx publicava edital convocando para, no dia primeiro seguinte, elegeram-se os nomes que comporiam a lista tríplice para a nomeação do primeiro diretor do Observatório Astronômico da Piedade. O nome de Francisco de Assis de Magalhães Gomes foi o escolhido pelo Reitor.


       4- As atividades do Observatório Astronômico da Piedade

       Ao iniciar suas operações o OAP contava com um quadro de cinco pesquisadores, dos quais em era mestre e os demais, mestrandos; destes, um se encontrava em fase de conclusão do curso e os demais o iniciavam. A escala de distribuição desses pesquisadores previa uma permanência de três dias consecutivos para cada um, conciliando assim os problemas de transportes entre o OAP e o campus, na Pampulha.
       Havia necessidade de dedicação exclusiva à pesquisa. Após uma noite de observações era impossível ministrar aulas, no dia imediato. Resolvidos esses primeiros problemas, no período de 1972 a 1985 formaram-se dez mestres, seis dos quais orientados por professores do ON, do IAG-USP e do Observatório Real da Bélgica. Os quatro mestres restantes, foram orientados exclusivamente por professores do OAP.
       Entre 1974 e 1979, consideráveis problemas oriundos de uma estrutura administrativa inadequada, perturbavam a vida e a produção do OAP. Dificuldades na obtenção de verbas para a manutenção dos locais e dos equipamentos, para a compra de materiais de trabalho e mesmo para a contratação de novos profissionais. Aqueles que se formavam não eram admitidos na própria UFMG, e em conseqüência buscavam colocações em outras instituições de pesquisas, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Superadas essas dificuldades, a partir de 1979 o OAP voltou às suas atividades plenas, contando com novas contratações de pesquisadores experientes. Através o FINEP e do CNPq foi impossível a aquisição de novos equipamentos complementares. Formaram-se, entre 1979 e 1984, quatro mestres e, com bolsa para exterior, um doutor, formado para o quadro permanente do OAP. Registrou-se, também, um crescente número de trabalhos científicos publicados em periódicos de conceito internacional. Os trabalhos em cooperação com outras instituições congêneres, notadamente o ON e o Observatório Real de Copenhague, foram retomados. A partir de 1985 as atividades estabilizaram-se e a participação em eventos científicos, no Brasil e no exterior, tornou-se freqüente.
       Uma visão abrangente sobre a trajetória do OAP pode ser obtida através do quadro na página seguinte, que sintetiza suas atividades, de 1972 até maio de 1997, podendo-se observar o período de crise entre 1974 e 1979.
       Dois pontos merecem destaque especial no quadro: o programa de publicações dos trabalhos ali produzidos que, desde 1980, tem-se mantido em quantidade ininterruptamente elevada e com qualidade cientifica comparável à dos seus congêneres internacionais; em segundo lugar, a participação em eventos comunitários, seja os de divulgação cientifica entre o grande público, seja em divulgação mais restrita, entre um público universitário, seja ainda na participação em cursos de informação e reciclagem de professores do primeiro e do segundo graus.
       Finalmente, cabe ressaltar que, aberto à divulgação da Astronomia e da Astrofísica à comunidade leiga, o OAP mantém, programas permanentes de acolhimento às visitas de grupos, em dias pré-determinados, durante as quais são preleções, exibidos filmes e outros materiais didáticos, além da visitação aos telescópios para observação de corpos celestes.




       BIBLIOGRAFIA
I – Fontes primárias
I.1- Documentos do arquivo do Departamento de Física, do Instituto de Ciências Exatas da UFMG:
1.1- Croquis para um pré-projeto de um observatório astronômico na Serra da Piedade. Doc. Datado de 17 de janeiro de 1968;
I.1.2- Ofício nº 116/68, do diretor do então Insituto de Física, ao Magnífico Reitor da UFMG. Datado de 16 de agosto de 1968, sobre as conveniências de um convênio com o Observatório Nacional, para desenvolvimentos do ensino de Astronomia na UFMG;
I.1.3– Carta da Reitoria da UFMG ao diretor do Departamento de Física, datada de 31 de outubro de 1968, comunicando a aprovação do convênio UFMG-ON;
I.1.4– Documento interno, de trabalho, atribuído ao prof. Luís Muniz Barreto e datado de novembro de 1968, com o título: Diretrizes para o desenvolvimento de um setor de Astronomia no Departamento de Física do ICEx.
I.1.5– Carta (cópia) oriunda do Observatório Nacional, com referência “nº 104-D: Arq.4”, datada de 01 de outubro de 1969, assinada por Luís Muniz Barreto e dirigida ao governador do Estado de Minas, Israel Pinheiro, referindo-se à construção de um observatório astronômico na Serra da Piedade;
I.1.6– Ofício nº361/70, datado de 20 de maio de 1970, do diretor do Instituto de Ciências Exatas da UFMG, ao Centro de Estudos Astronômicos Cesar Lattes;
I.1.7– Contrato de Comodato, firmado entre a UFMG e o Santuário de N.S. da Piedade, em Caeté, MG, datado de 27 de dezembro de 1971 (cópia);
I.1.8– Ofício nº 190/71, do Instituto de Ciências Exatas, para a Prefeitura do Campus da Pampulha, relativo às providências de transporte do equipamento destinado ao OAP;
I.1.9– Relatório de recebimento dos equipamentos importados para o OAP, datado de 30 de novembro de 1972;
I.1.10– Memorando do prof. Bernardino Reis, ao diretor do Instituto de Ciências Exatas, relativo à retificação da data do recebimento dos equipamentos importados para o OAP;
I.1.11– Carta ao prof. F.A. de Magalhães Gomes ao prof. M.L. de Siqueira, datado de 20 de outubro de 1976;
I.1.12– Relatório do Grupo de Astrofísica do ICEx, contendo a listagem das atividades cientificas do OAP entre 1972 e 1997 (data presumida: abril de 1997);
I.2– Documetos dos arquivos do Observatório Nacional
I.2.1– ROSCH,Jean. Relátorio final de missão. In: Observatório Nacional. Rio de Janeiro: Publicação interna, 1969, número 15
I.2.2– GODOY,R. Carvalho de. Comunicação interna. In: Observatório Nacional. Rio de Janeiro: Comunicação interna 1969, número 33
I.2.3– MELLO,Sylvio Ferraz. ESCOHA de sítio para o Observatório Astrofísico Brasileiro. In: Observatório Nacional. Rio de Janeiro: publicação interna 1982.p.5
Outros
I.3.1– Cartório do Registro Civil Jero Oliva. Belo Horizonte. Registro número 28.808, livro A-24, p. 196. criação do CEAMIG
I.3.2– Arquivo particular de Israel Pinheiro. Belo Horizonte, MG. Orçamento de custos para a construção do OAP

II – Fontes Secundárias (Artigos)
II.1- MACIEL,j. A. A Escolha de Sítio do ponto de vista dos índios. In: Boletim da Sociedade de Astronomica Brasileira, número 2, volume 14. são Paulo; SAB, 1994.
II.2- SANTOS, Paulo Marques & TARSIA, Rodrigo Dias. O programa da escolha ded sítio no Brasil e o O bservatório Astrtonômico da Serra da Piedade. In: Boletim da sociedade Astronômica Brasileira, número 1, ano 8. São Paulo: SAB, 1985, p.12
II.3- Seminário OPINIÃO. Caeté/MG, ano 2, número 34, primeira quinzena: Outubro, 1968.
II.4- TARSIa, Rodrigo Dias. Astronomia. In: DUARTE,Regina (coordenadora). Serra da Piedade. Belo Horizonte: CEMIG-UFMG, pp. 112-25
II.5- VEIGA, Laura, et al. UFMG: Trajetória de um projeto modernizante. In: Revista do Departamento de Hostória. Belo Horizonte: UFMG/FAFICH, 1987. Número 5, p. 4



OBSERVATÓRIO ASTRONÔMICO DA SERRA DA PIEDADE

(ATIVIDADES CIENTÍFICAS)

 

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Comunicações

no

 Brasil

 

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no Exterior

 

                          1 1 2 1 1     2   1 1 9 5*
 

Participação

em

Eventos

 

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Participações

Requeridas

 

                              4                    
 

Publicações

 

                1 1 1 5 5 7 7 12 7 12 6 6 8 4 4 9 7 5**
 

Notas: *  Posição até o mês de Abril de 1997

           ** Posição até o mês de Maio de 1997

Fonte: Relatório do Grupo de Astrofísica do Departamento de Física do ICEx -

Lista de trabalhos e publicações (sem data)

 

 


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