Debate: Extraterrestres

 

  Debate realizado na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig)  em 22 de maio de 2002
Artigo publicado na revista "Minas Faz Ciência" no 11 (jun. a ago./2002)
Texto final: Karina Almeida (editora geral da "Minas Faz Ciência")


 


Estamos sozinhos no universo?
Os cientistas respondem.


Apesar de não acreditar em discos voadores, muitos cientistas estão convencidos de que existem vidas inteligentes em outros planetas. Não é à toa que a Nasa (National Aeronautics and Space Administration) investe milhões de dólares, anualmente, em pesquisas relacionadas à vida no universo. Através do Instituto Seti (Search for Extra Terrestrial Inteligence), a Agência Espacial Americana pretende responder à seguinte pergunta: "Estamos sozinhos no universo?"

Parece que não. Em 1961, o astrofísico Frank Drake elaborou uma equação que busca o número de civilizações inteligentes, em nossa galáxia, que seriam capazes de se comunicar conosco. E, segundo o professor do Departamento de Física e coordenador do Observatório Astronômico da UFMG, Renato Las Casas, o resultado dessa equação pode chegar a 1,5 milhão!

Outros cientistas pensam diferente. "É mais fácil chover para cima, do que existir vida inteligente em outros possíveis mundos", disse o professor de Paleontologia do Instituto de Geociências da UFMG, Cástor Cartelle. Para ele, repetir as passagens da história da vida na Terra, em que, no meio de 30 milhões de espécies, somente uma é inteligente, seria muito difícil.

E você, leitor, acredita em E.Ts.? Antes de responder a essa polêmica questão, leia o debate com os professores Las Casas e Cartelle, realizado na redação da Minas Faz Ciência.
 

 


Redação da Minas Faz Ciência 

Antes de perguntar sobre a existência de vidas inteligentes em outros planetas, gostaria de saber quais são as linhas de pesquisa desenvolvidas, atualmente, sobre o assunto.

Las Casas – A pesquisa acerca de vida extraterrestre é subdividida em várias áreas, que talvez sejam mais fáceis de entender pela equação de Frank Drake, um astrofísico norte-americano. Essa equação foi formulada em 1961 e é muito simples. Ela pretende fornecer o número de civilizações mais do que inteligentes que desenvolveram tecnologia em nossa galáxia. E, se desenvolveram tecnologia, seriam capazes de se comunicar conosco. Comunicar da seguinte forma: eles seriam capazes de produzir ondas eletromagnéticas que chegariam até nós. E nós, detectando essas ondas eletromagnéticas, seríamos capazes de reconhecer alguns traços nelas.

O resultado (N) da equação de Frank Drake é obtido pela multiplicação de sete termos:   N = E x P x S x V x I x T x C. Três deles dizem respeito à astronomia. O primeiro (E) é o número de estrelas que se formam, por ano, em nossa galáxia. O segundo termo (P) é a percentagem dessas estrelas que se formam e que possuem sistema planetário, pois nem toda estrela vai ter, obrigatoriamente, um sistema planetário em torno dela. O terceiro termo (S) é o número médio de planetas, por sistema planetário, em condição de desenvolver vida, ou seja, planetas com superfície líquida. O quarto (V) e o quinto termo (I) da equação dizem respeito à biologia. Como nem todo planeta que tem superfície líquida, necessariamente, vai desenvolver vida, o quarto termo é a percentagem dos planetas em condições de desenvolver vida que, de fato, desenvolvem e o quinto termo é, dentre os planetas que desenvolveram vida, a percentagem daqueles que chegam ao estágio de vida inteligente. Outros dois termos podem ser classificados em uma área político-socioeconômica. Nem todo planeta que tenha vida inteligente, necessariamente vai desenvolver tecnologia, conhecer e dominar as técnicas de criação e detecção de ondas eletromagnéticas que possam ir longe e fundo nas galáxias. O sexto termo (T), então, é a percentagem, dentre os planetas que chegaram à vida inteligente, que desenvolveram tecnologia e são assim capazes de "se comunicar" conosco. O último termo (C) é a duração média de uma civilização desse tipo, comunicante, que desenvolveu tecnologia. Ou seja, são pelo menos sete áreas que podemos relatar. E essas áreas também podem ser subdivididas em outras áreas de pesquisa.

Se o resultado da equação de Frank Drake pode chegar a um milhão, possivelmente, existem um milhão de civilizações inteligentes em nossa galáxia...

Las Casas – É possível. Na realidade, o número de estrelas que se formam, por ano, em nossa galáxia é em torno de dez. E qual o número dessas estrelas que têm sistema planetário? Existem várias teorias que falam sobre formação de estrelas e, conseqüentemente, de sistemas planetários. A teoria mais aceita hoje – não vou dizer confirmada – é de que as estrelas se formam por condensação de nuvens interestrelares, nuvens de gás e de poeira e, concomitantemente ao processo de formação da estrela central, há a formação dos sistemas planetários em torno. Ora, se essa teoria estiver certa, praticamente, toda estrela é rodeada por um sistema planetário.

Existe outra teoria que diz que o Sistema Solar se formou pela colisão da nossa estrela Sol com outra estrela. Quando o Sol ainda era bem jovem, essa estrela passou bem próxima dele, arrancando material do Sol. Parte desse material arrancado voltou para o Sol, outra parte foi embora com essa estrela, e ainda outra parte ficou gravitando em torno do Sol, condensando-se – seria o lixo – e formaram-se os planetas. Colisão entre estrelas é raríssimo de acontecer. Se essa teoria estiver certa, é possível que o nosso sistema planetário seja o único em toda a galáxia. Então, o número da equação de Frank Drake cairia para zero, porque um termo seria igual a zero.

Em uma visão otimista acerca da vulgaridade da vida no universo, não fugindo à luz da ciência, pode-se chegar até a um milhão e quinhentos mil civilizações inteligentes em nossa galáxia.

Cartelle – Existem afirmações de que, há sete ou oito mil anos, teria caído na Terra um fragmento de meteorito arrancado de Marte. Parece que algumas formações filiformes nele presentes, de poucos milímetros, foram interpretadas por alguns como sendo possivelmente bactérias. Em maio deste ano, algumas publicações científicas negaram que sejam formações provocadas pela atividade de bactérias, mas seriam cristalizações naturais presentes no meteorito. Há também uma hipótese diferente da proposta inicial. Alguns acreditam que o meteorito é proveniente de Marte: teria havido um choque que tirou uma lasca do planeta, a qual foi rodopiando pelo espaço, durante milhares e milhares de anos, até cair na Antártida, acabando por ser encontrada. Mesmo aceitando esse fato – tacada fantástica de sinuca celestial! – há dúvidas se as tais estruturas sejam fósseis ou pseudofósseis, quer dizer, falsos fósseis. Mas em dez ou quinze anos, teremos uma resposta, senão antes, para um problema realmente fantástico: houve ou não vida no planeta vizinho do nosso?

Las Casas – Existem várias formações que indicam ou levam à suspeita de que já houve muita água líquida na superfície de Marte. Água em Marte há. Isso é certo. Existe vapor de água, nuvens, existe água congelada nas calotas polares. Agora, combinando pressão e temperatura, sabemos que a pressão em Marte é baixíssima. Não apenas porque a gravidade do planeta é bem menor do que a da Terra – Marte é um planeta muito menor que o nosso –, como também e principalmente porque a atmosfera de Marte é muito tênue, muito fininha. Então, combinando a pressão e a temperatura encontradas em Marte, vemos que água em estado líquido não se manteria na superfície, ela seria congelada ou evaporada imediatamente. Bem mais recentemente, há um ano e pouco, foram obtidos dados muito fortes de que existe muita água no subsolo de Marte. E que, por alguns motivos que não vêm ao caso, essa água, de vez em quando, flui em grandes golfadas pela superfície, abrindo canaletas que são recentes. No fundo do que seria um lago, em que vemos uma formação de dunas sem marca alguma de meteoróide, sem cratera, sem nenhuma marca de que algo caiu ali, o que indica que aquelas dunas foram formadas recentemente. E aquele material, que foi depositado em cima delas, veio mais recentemente ainda, no processo de formação das canaletas, abertas por água, que teria jorrado a partir do subsolo. Marte já teve condições que acreditamos propícias para, em alguma época, ter havido vida lá.

Não vidas inteligentes...

 


Renato Las Casas



Las Casas – Não. Não estou me referindo à vida inteligente. Se não houve vida lá, chegamos à seguinte conclusão: se esse planeta teve toda a condição e não desenvolveu vida, a vida não é algo tão vulgar. Ou podemos chegar à conclusão de que Marte tem condições de desenvolver vida e, de fato, houve vida lá. Então, a vida pode ser algo vulgar e comum, dentro do Sistema Solar. Com relação aos meteoritos, aproximadamente vinte foram classificados como possivelmente originados em Marte. Um deles foi achado aqui, em Minas Gerais. É um meteorito mineiro. Sobre o que foi achado na Antártida, não me lembro do nome dele, houve um "bafafá" tremendo sobre alguns traços encontrados nele, que seriam indicativos de serem microfósseis.

Cartelle – Microfósseis, parecidos com as estruturas do possível meteorito marciano, já foram encontrados na Terra. Shopf e Borghoorn estudaram alguns dos fósseis mais primitivos até hoje achados na Terra. Quanto mais elementos houver num organismo fossilizado mais fácil é analisá-lo, identificá-lo ou diferenciá-lo de outro. Reconhecer se há manifestações de origem orgânica em amostras pertencentes a organismos primitivos ou se elas são uma coincidência ou imitações (pseudofósseis) não é fácil. Nessas amostras, há informações mínimas que podem até estar mascaradas. Sabemos que a vida começou muito simplesmente, primeiro com os procariontes, quer dizer, organismos que nem núcleo tinham, e alguns fossilizaram. Em lâminas de sedimentos preparadas aleatoriamente, encontrar um organismo desses e identificá-lo como tal, uma bactéria, é muito problemático. Fazer isso com organismos de um outro planeta, que não seriam iguais aos primitivos da Terra porque as circunstâncias lá seriam outras, é, ainda, mais complicado. Reconhecer nessa amostra um fóssil ou um pseudofóssil, isto é, um fóssil que parece mas que, na realidade, não é, é muito complicado. Por isso, há tantas discussões.

Las Casas – O que estamos falando está intimamente ligado a uma outra questão que é a origem da vida na Terra. Se em todo Sistema Solar há vida, onde se formou primeiro? Como poderia um ser vivo migrar de planeta para planeta? Agora, outra coisa é existir vida com o início do desenvolvimento em um planeta, sem haver migração.

Cartelle – Acaba sendo igual. Se migra de um planeta para outro, desloca-se "geograficamente" o problema. Como começou a vida em um lugar onde ela se originou, não foi transplantada?

Las Casas – É tudo questão de como começou. Há uma diferença significativa de economia de tempo. Seria mais ou menos o seguinte a vida na Terra: ou teria origem aqui – a chamada Teoria da Geração Espontânea –, ou veio de um estágio mais desenvolvido, veio de fora – Teoria da Panspermia. Essa questão já é debatida há milênios. Anaxágoras, por exemplo, precessor de Sócrates, acreditava e era um advogado da Teoria da Panspermia.

Cartelle – O Parmênides também, outro grego.

Las Casas – Aristóteles foi um grande defensor da Teoria da Geração Espontânea. Ele falava que havia dois princípios que, juntos, podiam gerar vida. Ele usava como exemplo a carne podre, que é algo completamente sem vida, mas que origina vida: larvas de moscas. Essa teoria ficou imbatível durante milênios. Podemos dizer que a teoria oficial, aceita pela ciência, sempre foi a da geração espontânea.

Cartelle – Até que Pasteur, com a pasteurização disse: espera aí.

Las Casas – Pasteur jogou por terra não a Teoria da Geração Espontânea, mas a Teoria da Geração Espontânea vista por Aristóteles.

Cartelle – Isso foi no século XIX.

Las Casas – Antes disso, houve um florentino, Francesco Redi, que foi a primeira voz forte contra Aristóteles. Ele, fazendo um trabalho experimental, demonstrou que somente aparecem larvas de mosca na carne podre quando moscas pousam na carne podre. Mas somente Pasteur veio jogar isso fora, não jogando por terra a Teoria da Geração Espontânea. Na Idade Média, grandes pensadores da Igreja, São Tomás de Aquino, por exemplo, eram a favor da Teoria da Geração Espontânea. No século XX, essa questão foi muito debatida, sempre com uma visão preponderante da geração espontânea. Stanley Miller, em uma série de experimentos, tentando reproduzir reações químicas que teriam ocorrido na Terra primitiva, produziu aminoácidos em laboratório. Isso foi um encorajamento a favor da Teoria da Geração Espontânea. Cada vez que entendemos mais esse processo que pode ter levado à vida, mais difícil achamos que a geração espontânea tenha acontecido. Isso nos leva a pensar que vida é algo difícil de surgir no universo.

Por outro lado, a Teoria da Panspermia ressurgiu no século passado com uma força muito grande. Principalmente a chamada Nova Panspermia, elaborada por Wickramasinghe e Fred Hoyle, esse último morreu há pouco tempo. Essa teoria procura responder àquelas questões que dificultavam a aceitação da Teoria da Panspermia, que são as seguintes: se existe vida no espaço, por que ela não é destruída pela radiação, principalmente a ultravioleta das estrelas? Então, Hoyle e Wickramasinghe, uma dupla que sempre trabalhou junta, dizem que esporos de vida ficam protegidos da radiação das estrelas, escondidos nos grãos de poeira interestelar (3/4 da massa de uma galáxia está na forma de gás e poeira interestelar), que podem chegar até a borda dos sistemas planetários e podem ter chegado a borda do nosso Sistema Solar. Mas a Terra, por exemplo, é um planeta bem perto do Sol. Como essa vida poderia chegar tão perto da estrela central? Então seria, de acordo com a Nova Panspermia, carregada por cometas. Os cometas espalhariam esses esporos de vida pelos sistemas planetários. Sabemos que, freqüentemente, acontecem as chuvas de estrelas cadentes, chuvas de meteoros, e que elas acontecem quando a Terra atravessa regiões do espaço que foram "sujas" por cometas. É um material de cometas que está caindo na Terra. Se isso for verdadeiro, esse material pode trazer esporos de vida para nós.

 


Cástor Cartelle


Cartelle – Não vejo claramente como isso poderia ocorrer... Uma cápsula de astronauta volta para a atmosfera porque tem proteção. Se uma estrela cadente risca o céu, nela, os possíveis elementos de vida iriam chegar aqui numa torração total. De acordo com as experiências do Miller e de uma série de russos, teoricamente os elementos prebióticos, quer dizer, os "tijolos da parede da vida" surgiram espontaneamente ocasionados por reações químicas aleatórias. Teoricamente isso é possível. É verdade que ainda não se conseguiu em laboratório a passagem da prebiótica para a biótica. Mas elementos prebióticos, os "tijolos" com que iria ser construída a vida, aconteceram de forma espontânea, naturalmente. Parece-me esta possibilidade mais lógica ou "parcimoniosa" do que a da "plantação" interespacial.

Quanto ao início da vida, quando teria acontecido na Terra, em que circunstâncias, com que tipo de defesa dos raios ultravioletas e outros, uma vez que não havia a camada de proteção da estratosfera, pelo menos como conhecemos hoje? Mas havia água que realizava sobre os primitivos e frágeis, submersos a 50, 80 metros, o papel protetor que tem a atmosfera contra raios maléficos. Sabemos que os primeiros seres vivos encontrados foram bactérias. Essas bactérias, pelo menos as detectáveis, estariam, na história da vida, há 3,6 milhões de ano. Pode ter sido há 3,7 ou 3,8, nessa magnitude de tempo essa diferença é desprezível. Desde o início, precisaram ocorrer condições propícias para o surgimento dela. Obviamente, numa Terra magmática, incandescente, é impossível que qualquer tipo de vida tivesse vingado. Deu-se o tempo certo.

Las Casas – É interessante a possibilidade de cometas trazerem vida. O Prof. Cartelle argumentou algumas dificuldades. Como temos procurado checar isso? Existem missões planejadas para pousarem em núcleos de cometas. Também existem trabalhos feitos que são mais ou menos assim: até uma determinada altura na atmosfera, pode haver um fluxo dos elementos constituintes. Ou seja, até uma determinada altura na atmosfera, é possível que haja elementos da superfície que se elevem. Acima daquela altura, não é admissível isso. Os pesquisadores têm procurado detectar alguns esporos de vida, alguma bactéria, acima dessa zona de convecção.

No ano passado, num congresso nos Estados Unidos, o Wickramasinghe, esse que trabalhava com o Fred Hoyle, apresentou alguns dados bem animadores no que diz respeito a isso. Esses dados indicam fortemente a presença de esporos de vida acima dessa região de convecção da nossa atmosfera. Esses esporos de vida teriam sido recolhidos por balões alçados pela agência espacial indiana. Resta saber se não houve alguma contaminação, ou no processo de subida, ou no processo de descida, ou mesmo no laboratório.

Então, tudo gira em torno de suposições...

Las Casas – Mas a ciência é isso. Uma teoria é apenas um modelo. O seu modelo será bom se explicar os fenômenos observados no laboratório. Melhor ainda será se prever alguns fenômenos ainda não observados e você verificar que, de fato, eles acontecem.

Cartelle – Pode-se, digamos assim, fazer ligações ou ilações errôneas que vão corrigindo-se, mas há uma história da vida – enquanto química do carbono, enquanto ser que nasce, cresce, se reproduz e morre – que teve um início e foi evoluindo. Do que dependeu essa história complexa, variada? Simplesmente do aleatório. É assim, mas podia ser diferente. Por exemplo, houve momentos em que o enxofre era tanto na atmosfera que, desde Marte, não seria vista a Terra azul, mas amarela. Difícil imaginar a quantidade de vapores, chuvas ácidas que corroíam tudo o que tocavam numa assustadora Terra inóspita e cinza. Então, naquela Terra estranha, tipos de vida como os de hoje seriam impensáveis, porque estariam condicionados a um meio diferente e ainda teríamos que contar com as seleções de organismos que ocorreram nas mesclas, nos intercâmbios genéticos e reprodutivos, dentre outras causas. Logo, o início da vida na nossa Terra, seja porque aqui foi implantada e semeada, seja porque nela surgiram elementos pré-bióticos, foi absolutamente aleatório no tempo e na forma. Um profeta, testemunha do início da vida, não poderia prever no que ia dar.

Será que poderiam repetir-se tipos ou acontecimentos de vida semelhantes em outros planetas que, histórica e constitutivamente, não repetiriam a Terra? Tenho uma pulga permanente atrás da orelha no que se refere à vida pelo cosmos afora.

É possível que tenha existido um tipo de vida diferente, em outro planeta, devido a outras coincidências?

Las Casas – Carl Sagan e Salzpeter falam da possibilidade de vida em Júpiter, que é um planeta gigantesco e não tem superfície sólida. Eles elaboraram uma teoria de como seria a vida em Júpiter. Seriam como balões, que flutuassem nesse mar de Júpiter.

Cartelle – Esses balões seriam reconhecidos como seres vivos ou como fenômenos físicos?

Las Casas – O que é vida?

Cartelle – Temos a definição clássica que antes citei. Há 2,5 milhões de anos, há o registro de que surgiu a vida inteligente: o homem. Antes, não havia. Não é possível afirmar que houve seres inteligentes antes disso, porque não existem registros nem manifestações. Sabemos que esse "homo" era inteligente: ele foi capaz de preservar fogo, de progredir na base do raciocínio fabricando instrumentos. Foi um caminho imenso que seguimos desde a bactéria até a vida mais complexa dos vertebrados, que se iniciaram com os peixes, que originaram os anfíbios; estes, os répteis, que deram origem às aves e aos mamíferos há 230 milhões de anos. Após longa história, há 2,5 milhões de anos, apareceu o homem. Quantitativamente é um tempo que não conta, é um nada, é zero.

Dentre os 30 milhões de seres vivos que, alguns calculam, hoje compartilhamos a mesma casa – a Terra –, somente uma espécie é inteligente. Há 2,5 milhões de anos, temporalmente nada, isso não havia. Repetir as miríades de gerações aleatórias para chegar a ocorrer vida inteligente em outros mundos possíveis, repetir essa explosão única em 30 milhões de anos, que é a inteligência, e coincidir, na história, com esses 2,5 milhões de anos para podermos constatar sua existência e "compartilhar experiências parece-me ser mais difícil do que chover para cima. Não consigo, teoricamente, entender essa possibilidade. Realmente, há chances, desde o ponto de vista estatístico?

Las Casas – Quantas pessoas devem existir no planeta Terra que tenham o mesmíssimo número de fios de cabelo no corpo? Várias. Porque o número de indivíduos é muito grande, muito maior que o número de fios de cabelo que a pessoa tem no corpo.

Cartelle – Estamos com uma variável muito pequena. Não sei quantos seriam, mas calculemos que seja entre 200 mil e um milhão. Mas isso é um caráter único. Quantos milhões de pessoas terão exatamente a minha altura, 1,80m, e 82 quilos? Muitíssimos. Mas estamos mexendo é com DNA, com circunstâncias, com variáveis incontáveis, com bilhões de anos de história, com mudanças aleatórias, com composições químicas de meio físico e de indivíduos que são únicos.

Las Casas – Estamos lidando também com um número imenso de estrelas. Somente na nossa galáxia, são de 200 a 250 bilhões de estrelas. Estou falando estatisticamente.

Cartelle – Estatisticamente, esses 250 bilhões estão em uma distância tão fenomenal que não dá para comprovar. Esse mundo é virtual. Quando me falam que o homem vai evoluir, fico doente. O homem, por muito que evolua – a palavra evolução em mentes férteis e xiitas do pensamento é um perigo –, sempre terá certos parâmetros físicos de limitação.

Las Casas – Mas a vida extraterrestre, se houver, independe inclusive da nossa vida. Então, não podemos raciocinar em termos da vida na Terra.

Cartelle – Essa vida, mesmo que seja diferente, terá certos parâmetros. A vida certamente estará constituída de matéria.

Las Casas – Independentemente da nossa evolução, tudo o mais, no universo, continua da mesma forma.

Cartelle – Mas a nossa evolução está dentro de certos parâmetros que não podem ser ultrapassados.

Las Casas – O Mário Livio, um físico italiano que trabalha no Instituto SETI, diz, em seu trabalho, que, independentemente da probabilidade de vida extraterrestre, se houver vida extraterrestre inteligente, deve estar como a nossa, ou seja, dentro de uma escala de tempo universal, desabrochando agora.

Cartelle – Mas por quê? Quero fazer uma pergunta: vamos supor que o início do universo tenha sido há 18 bilhões de anos. Se a Terra se formou há cinco bilhões, é de admitir-se que pode haver "Terras" que tenham se formado há pouco menos de 18 bilhões. Ou bem antes da nossa.

Las Casas – Não, pelo seguinte. No início do universo, há dezenas de bilhões de anos, não havia "elementos pesados". As primeiras estrelas que se formaram – e se sistemas planetários formaram-se em torno delas – tinham apenas hidrogênio e um pouquinho de hélio. Foi necessário existir as primeiras estrelas para sintetizarem os elementos mais pesados. Aí, então, nas estrelas e sistemas planetários formados com os elementos pesados sintetizados pelas primeiras que existiram (inclusive o carbono), pode-se admitir vida.

Cartelle – Se ainda hoje formam-se estrelas, isso quer dizer que, daqui a alguns bilhões de anos, elas podem ter a sua “Terra”. Se a Terra se formou há cinco milhões de anos, há possíveis "Terras" que se formaram antes e depois. Nesses espaços temporais imensos, como coincidir a vida e a vida inteligente com o tempo delas na nossa Terra?

Las Casas – Mas esse antes, falando em tempo universal, seria muito curto. As primeiras estrelas que existiram no universo não tinham condições de desenvolver vida – pelo menos como a entendemos, à base de carbono. O elemento carbono nem existia. Ferro não havia. A vida surgiu no Sol, por quê? É uma estrela de segunda geração. Ela já foi formada a partir de elementos sintetizados em estrelas anteriores. A primeira geração de estrelas não admitia planetas com condições de desenvolver vida em seu entorno. Se admitissem, deveriam ser planetas do tipo de Júpiter, que falei há pouco, e não do tipo da Terra ou Marte. Estamos no meio da vida do Sol, que deve ter uns cinco bilhões de anos. Por que a vida inteligente surgiu quase no meio do ciclo de vida que esperamos do Sol? Por causa de uma série de fatores que você já falou: fatores aleatórios, sim, fatores probabilísticos, vamos dizer assim.

Cartelle – Em Marte, não poderia surgir esse tipo de vida.

Las Casas – Teria de haver uma diferença significativa sob certos aspectos. O Mário Livio argumenta que vida inteligente no universo está surgindo por agora. Por agora, quando? Há algumas centenas de milhões de anos, talvez há um bilhão de anos. Esse tempo é muito curto, se você fala em dezenas de bilhões de anos, que seria o tempo do universo. Veja bem. Um cachorro é muito diferente de nós. Agora, se pensarmos nos seres jupterianos do Carl Sagan, como o cachorro será parecido conosco. Ele tem pulmão, certos "insights" que são como os nossos. É interessante pensarmos nesse ponto. O que é parecido e diferente? Devemos pensar em todas as possibilidades que há.

Cartelle – Se houver uma vida inteligente diferente, nos esquecemos de que essa comunicação por ondas de rádio ou semelhantes de que falamos tem 100 anos.

Las Casas – Comunicante não é quem chega e fala: "Oi, tudo bem"? Não é nada disso. O comunicante é aquele que produz algo que pode ser detectado à distância, em outro sistema planetário e, em detectando, você fala: "Essa onda, essa radiação não foi produzida naturalmente".

Mas dá para saber de onde veio e quando?

Las Casas – Dá para saber de onde. E, sabendo de onde, você vai saber quando, porque, vai se saber a distância, o tempo que demorou para aquela radiação chegar até você. Dá até para responder. Vamos supor uma estrela que esteja há mil anos-luz de nós. Está mais ou menos na nossa vizinhança. A nossa galáxia tem um diâmetro de cem mil anos-luz. Se, hoje, detectarmos uma radiação vinda daquela estrela, se mandarmos outro sinal dirigido para aquela estrela, eles somente receberão dois mil anos depois que nos mandaram a radiação.

Cartelle – O meu bloqueio maior para a aceitação de uma hipótese dessas é que somos únicos e exclusivos em 30 milhões de seres. Quer dizer, é uma exceção na vida fantástica. Se isso é aplicável a outros mundos, será que essa exceção se repetirá novamente?

Las Casas – Pelo que estou vendo, você não acredita em termos probabilísticos. A probabilidade é muito pequena, não zero.

Cartelle – É tão pequena e, ao mesmo tempo, intangível...

Las Casas – É um dado que você vai atirar que não tem seis faces, mas um milhão de faces. Sair a face que você quer é muito difícil. A menos que você atire esse dado bilhões de vezes. Aí, você praticamente pode dizer que vai ser certo sair uma, duas ou cem vezes aquela face que você quer. Se você pegar em termos de planeta Terra, são tantos os parâmetros que, ao acaso, vão se casando uns com os outros que vamos dizer que é como, num dado de milhões de faces, sair a única face que poderia fazer surgir vida. Esse mesmo dado está sendo atirado trilhões de vezes pelo universo. Ora, estatisticamente falando, probabilisticamente falando, é como atirar um dado nesse planeta. Deu sorte. O dado foi atirado em Marte e não deu sorte, foi atirado em uma outra estrela e também não deu sorte. Mas, se você for repetindo isso, 200 bilhões de vezes ou mais, aí já não é sorte.

Cartelle – Como probabilidade, quero deixar bem claro que evito a palavra impossível. Mas tenho uma repugnância, estatisticamente falando, tão grande, que mesmo que não seja impossível a constatação de um fato assim...

Las Casas – A constatação é outra coisa. A equação de Frank Drake é uma forma de cercar o raciocínio cientificamente.

Cartelle – O qual não é ufologia, nem esoterismo.
 
 

 

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