A Estrela de Belém

Prof. Renato Las Casas (15/12/03)

 

             Os documentos existentes referentes a Jesus Cristo foram todos eles escritos várias décadas após a sua morte. Jesus não foi considerado importante quando em vida; como conseqüência, faltam-nos detalhes precisos de sua vida, inclusive de seu nascimento.
             A principal fonte de informações não bíblicas sobre a Palestina, na época de Jesus, vem de Flavius Josephus, historiador judeu que escreveu entre os anos 70 e 100 da nossa era. Em uma de suas obras ele faz uma rápida menção a Jesus em sua fase adulta; mesmo assim sem precisar datas ou idades.
             Tacitus, historiador romano que viveu de 56 a 118 de nossa era, também faz uma referência muito rápida a Jesus. Ele se refere à morte de Cristo em uma única frase de sua extensa obra.
             No século VI, Dionysius Exiguus, a serviço do Papa João I, determinou a data de nascimento de Jesus como havendo ocorrido há 532 anos. O ano que se iniciou logo após essa data passou a ser considerado o ano 1 de nossa era (1º Anno Domini Nostri Jesu Christi).
             As principais informações que temos sobre o nascimento de Jesus, sem dúvida alguma, vêm dos livros de Mateus e de Lucas do “Novo Testamento”. Importante salientar, entretanto, que esses autores não escreveram com o rigor de historiadores, como concebido atualmente
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Mateus – Cap. 2; vers. 01 a 12 e 16:

                   E tendo nascido Jesus em Belém da Judéia no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, dizendo: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos adorá-lo.
                    E o rei Herodes, ouvindo isto, perturbou-se, e toda Jerusalém com ele.
                    E, congregados todos os príncipes dos sacerdotes, e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer o Cristo. E eles lhe disseram: Em Belém da Judéia; porque assim está escrito pelo profeta: E tu Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar o meu povo de Israel.
                   Então Herodes, chamando secretamente os magos, inquiriu exatamente deles acerca do tempo em que a estrela lhes aparecera. E, enviando-os a Belém, disse: Ide, e perguntai diligentemente pelo menino, e, quando o achardes, participai mo, para que também eu vá e o adore.
                   E tendo eles ouvido o rei, partiram; e eis que a estrela, que tinham visto no oriente, ia adiante deles, até que, chegando, se deteve sobre o lugar onde estava o menino. E, vendo eles a estrela, alegraram-se muito com grande alegria.
                   E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe, e prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, lhe ofereceram dádivas: ouro, incenso e mirra.
                   E, sendo por divina revelação avisados em sonhos para que não voltassem para junto de Herodes, partiram para a sua terra por outro caminho.
                   Então Herodes, vendo que tinha sido iludido pelos magos, irritou-se muito, e mandou matar todos os meninos que havia em Belém, e em todos os seus contornos, de dois anos para baixo, segundo o tempo que diligentemente inquirira dos magos.

Lucas – Cap. 2; vers. 01 a 07:

                   E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo se alistasse. Este primeiro alistamento foi feito sendo Cirênio presidente da Síria. E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade.
                   E subiu também José da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém (porque era da casa e família de Davi), a fim de alistar-se com Maria, sua mulher, que estava grávida.
                   E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz. E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem.

            Rei Herodes, César Augusto e Cirênio, relacionados ao nascimento de Jesus por Mateus e Lucas, foram governadores oficiais do Império Romano e possuem várias referências históricas. A morte de Herodes “o grande”, por exemplo, teria acontecido entre os anos 04 e 01 antes de nossa era. (Flavius Josephus menciona um eclipse lunar que ocorreu pouco antes da morte de Herodes. Esse eclipse tem sido identificado pela maioria dos historiadores como sendo o ocorrido em 13 de março do ano 4 antes de nossa era.) O nascimento de Jesus teria ocorrido no final do reinado de Herodes.

            Fenômenos astronômicos ligados a acontecimentos históricos são excelentes para precisar datas. A “Estrela de Belém”, descrita por Mateus, teria sido um fenômeno astronômico? Poderia ela nos ajudar a precisar a data correta (pelo menos o ano) do nascimento de Jesus?
             Que fenômeno astronômico poderia ter levado os magos à interpretação do “anúncio do nascimento de Cristo”? A descrição da “Estrela de Belém” feita por Mateus é superficial a ponto de nos permitir vislumbrar várias possibilidades.
             Alguns fenômenos astronômicos, tais como eclipses; conjunções planetárias; aparecimentos de cometas de curto período; etc. são cíclicos e podemos saber com precisão sobre suas datas de ocorrência através de cálculos matemáticos. Outros fenômenos tais como aparecimentos de cometas de longo período; novas; super-novas; etc. para sabermos se e quando aconteceram, temos que recorrer a relatos de civilizações espalhadas pelo mundo; muitas vezes dos chineses antigos que eram observadores meticulosos do céu.

Teria sido um cometa?
Teria sido o Halley?

             A primeira explicação astronômica que se procurou dar para a “Estrela de Belém” foi que teria sido um cometa. (Essa imagem ainda é muito forte no imaginário popular; onde freqüentemente a “Estrela de Belém” é representada como uma “estrela com cauda”.) Cometas possuem “caudas” que parecem apontar para algum lugar.
             Dependendo de onde vemos o cometa, temos a impressão dele estar apontando pra esse ou aquele ponto do horizonte. Visto do local adequado o “Cometa – Estrela de Belém” daria a impressão de estar apontando para Belém. Além disso cometas aparecem, desaparecem por algum tempo (quando passam próximo do Sol) e reaparecem; isso em períodos de alguns meses (compatíveis com o tempo suposto da viagem dos magos).

             Cometas são “pedras de gelo sujo” que gravitam em torno do Sol em órbitas elípticas muito “achatadas”; o que faz com que eles se aproximem e se distanciem periodicamente do Sol (e conseqüentemente da Terra uma vez que, em termos de Sistema Solar, nosso planeta fica próximo do Sol).
             Essas pedras de “gelo sujo” são formadas por uma mistura de elementos voláteis; pedras; grãos de poeira (dos tamanhos os mais variados); etc. Quando se aproxima do Sol, parte desse material se volatiliza liberando parte das pedras e grãos de poeira que estavam presos ao gelo. Inicialmente esse material que se desprende do núcleo do cometa (a pedra de gelo sujo) fica gravitando em torno do núcleo, formando uma “nuvem” de gás e poeira que chamamos de “cabeleira”. Parte desse material vai ser “empurrado” pelo vento solar no sentido contrário ao que o Sol se encontra, formando a “cauda” do cometa. Os cometas sempre “apontam” para o Sol. Vendo um cometa no céu, temos a impressão que ele está “apontando” para um ponto da linha do horizonte que fica entre o cometa e o Sol.

             Se a “Estrela de Belém” foi um cometa, que cometa teria sido? Um cometa sempre volta em períodos regulares. Quantas vezes mais o “Cometa – Estrela de Belém” teria se aproximado do Sol, depois da época do nascimento de Jesus? Seria ele um cometa conhecido e catalogado?
             Astrônomos do século XVI propuseram haver sido a “Estrela de Belém” o cometa Halley. Na época acreditava-se ser o período do Halley um pouco menor que o conhecido atualmente. Acreditava-se assim que o Halley havia “passado” no ano 1 antes de nossa era. Hoje sabemos que o Halley “passou” no ano 12 antes de nossa era. Muito cedo para estar associado ao nascimento de Jesus.
             Nenhum dos cometas conhecidos, segundo os dados hoje catalogados, passou por aqui, capaz de ser visto a olho nu, entre os anos 7 antes de nossa era e o ano 1 de nossa era; período admissível do nascimento de Cristo.
             Astrônomos chineses, entretanto, registraram “uma nova estrela” na constelação de Capricórnio, no ano 5 antes de nossa era. Essa nova estrela poderia ser um cometa (os registros não dizem se essa nova estrela se movimentava em relação às estrelas de fundo, caracterizando-se assim como um cometa) ou uma “estrela explodindo”. Estrelas “explodindo” são conhecidas como “novas” ou “super-novas”.

Teria sido uma "Nova"?

             Chamamos de “Novae” (plural de “Nova”) àquelas estrelas que subitamente têm seus brilhos aumentados de dezenas a centenas de milhares de vezes. Muitas vezes uma estrela que só pode ser observada com potentes telescópios, no espaço de algumas horas ou dias se torna um dos objetos mais brilhantes do céu, permanecendo assim por alguns dias ou semanas.
             Interpretamos esse fenômeno como o resultado da interação entre duas estrelas próximas (sistema binário) onde uma delas, “velha e exaurida”, vai “colhendo e acumulando” combustível (hidrogênio) de sua companheira. De tempos em tempos (centenas de milhares de anos) esse material acumulado atinge massa crítica e dá-se início a um violento processo de queima (explosão), surgindo assim a “Nova”.

             O único registro de “novae” no tempo admissível do nascimento de Jesus, que temos notícia, foi feito por astrônomos chineses, na constelação de Capricórnio, no ano 5 antes de nossa era. Teria sido essa “nova” a “Estrela de Belém”?
             Segundo esses mesmos registros, essa não era uma “nova” muito brilhante, capaz mesmo de não se fazer notar por um observador menos atento. Além disso, como uma “nova” pode indicar um local ou uma direção a seguir? “Novae” não têm assimetrias (como caudas) que “apontam para algum lugar” e se mantém fixas em relação às estrelas de fundo.
             A “nova” de Capricórnio só é plausível como a “Estrela de Belém” se admitimos interpretações “astrológicas” dadas pelos “Reis Magos”. Os sábios da época preocupados com o movimento, aparecimento, etc. das estrelas, tinham crenças tais que hoje os chamaríamos de astrólogos.

Teria sido uma
“Dança de Júpiter”?

             Admitindo interpretações astrológicas dos “Reis Magos”, torna-se forte a idéia da “Estrela de Belém” haver sido algum fenômeno envolvendo o planeta Júpiter (conjunção; agrupamento; movimento retrógrado; etc.) ou mesmo alguns desses fenômenos em seqüência. Segundo crenças da época Júpiter era a “estrela real” e estava associado a “reinados e coroações”.

             No ano 7 antes da nossa era houve uma tripla conjunção entre Júpiter e Saturno. Esses planetas se aproximaram no céu (mas não o bastante para serem confundidos como um único objeto), na constelação de Peixes, nos meses de maio, setembro e dezembro. Saturno era associado à Palestina e a constelação de Peixes era associada à nação de Israel.
             Aqueles que acreditam ser essa tripla conjunção a “Estrela de Belém”, argumentam: Os magos viram a primeira conjunção em maio e iniciaram a jornada. Durante a segunda conjunção, em setembro, chegaram a Jerusalém e durante a terceira conjunção, em dezembro, chegaram a Belém.

             Em fevereiro do ano 6 antes de nossa era houve uma grande aproximação (quase conjunção) entre Júpiter, Saturno e Marte; também na constelação de Peixes. Seria essa aproximação a “Estrela de Belém”?

           Atualmente tem aumentado o número dos que acreditam que Herodes morreu no ano 1 antes de nossa era; sendo então plausível o nascimento de Jesus nos anos 4, 3 ou mesmo 2 antes de nossa era.

             Em setembro do ano 3 antes de nossa era, Júpiter se aproximou de Régulus, a estrela mais brilhante da constelação de Leão. Essa constelação era considerada a constelação dos reis e também estava associada ao “Leão de Judá”. Seria esse o sinal que levou os magos a iniciarem sua jornada?
             Em outubro houve uma conjunção entre Júpiter e Vênus, também na constelação de Leão. No ano seguinte, em fevereiro e maio aconteceram outras duas conjunções entre Júpiter e Régulus. Em Junho houve uma conjunção entre Júpiter e Vênus
             No ano 2 antes de nossa era, Júpiter realizou um “loop” no céu (movimento retrógrado), onde inverteu a direção de seu movimento em relação às estrelas de fundo (esteve então estacionário) no dia 25 de dezembro. Seria essa a data da chegada dos magos a Belém?

 

 

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