As Nuvens de Magalhães

Prof. Domingos S. L. Soares (02 de janeiro de 2007)

Colaborou: Prof. Renato Las Casas
 

Ora (direis) ouvir estrelas!
Olavo Bilac, 1888

Ora (direis) ver galáxias!
D.S.L. Soares, 2007


 

    Feliz Ano Novo!

 

          Com os votos de feliz ano novo, aproveitamos a época propícia (janeiro e fevereiro) deste e de todos os anos por vir, para sugerir uma emocionante aventura pelos céus: estamos em excelente época para se ver, à vista desarmada, uma galáxia inteira! Com sorte, duas!

          Trata-se da GRANDE NUVEM DE MAGALHÃES e da PEQUENA NUVEM DE MAGALHÃES!

          Ambas são galáxias anãs, com formatos irregulares, satélites de nossa própria galáxia, a Via Láctea. Mas nada mal para se iniciar no fabuloso mundo das galáxias...

 

Galáxias

 

         Galáxias são grandes conjuntos de estrelas que são mantidas juntas pela atração gravitacional mútua. O Sol é apenas uma das centenas de bilhões de estrelas da nossa galáxia, à qual chamamos Via Láctea.

          A atração gravitacional é uma das interações fundamentais da natureza (massa atrai massa!) e é responsável, por exemplo, pelo peso que temos e pela presença da Lua em nossos céus. O equilíbrio do universo está entre a atração gravitacional e o movimento dos corpos. Se parasse a Lua, ela "cairia" sobre a Terra. Se parassem as estrelas, elas "cairiam" umas sobre as outras; se parassem as galáxias, também elas, "cairiam" umas sobre as outras.

         As galáxias são muitas vezes chamadas de os "tijolos" fundamentais da estrutura do universo. O universo (tudo o que existe) pode ser estudado em "larga escala" como se fosse um conjunto de "pontos", no qual cada "ponto" é, na verdade, uma galáxia. Nestes estudos procura-se entender a evolução do universo como um todo. Por isso, as fenomenais galáxias podem ser tratadas como se fossem simples pontos.

 

 

Companheiras

 

          A Via Láctea possui muitas companheiras menores (galáxias-satélites), que a acompanham em sua jornada pelo espaço cósmico afora. Duas delas são especiais pois estão ligadas de certa forma aos nossos antepassados portugueses e porque podem ser facilmente descortinadas em céus brasileiros. São elas, a Grande Nuvem de Magalhães e a Pequena Nuvem de Magalhães.

          Essas "Nuvens" foram avistadas (e registradas) em 1520 pelo navegador português Fernão de Magalhães (1480-1521). Ele foi o primeiro habitante do hemisfério norte a se referir a elas em suas anotações de viagem. Dai o nome dado a estas galáxias, que compõe um cenário de grande beleza em nosso céu, e que têm grande importância na história das descobertas científicas em astronomia.

          Sendo galáxias as Nuvens de Magalhães são constituídas por estrelas. Mas como em toda galáxia, entre as estrelas, existe também muito gás (especialmente hidrogênio) e muita poeira.

          As Nuvens de Magalhães estão localizadas a 180.000 anos-luz de distância e são a terceira e a quarta galáxia mais próxima da Via Láctea.

          As galáxias "Anã do Cão Maior" (descoberta em 2003) e "Anã de Sagitário" (descoberta em 1994), nossas vizinhas mais próximas, estão a aproximadamente  50.000 e 90.000 anos-luz do centro da nossa galáxia. Elas são de difícil visualização, pois se confundem com as estrelas, gás e poeira de nossa própria galáxia, uma vez que se encontram ao longo do plano que contém o disco da Via Láctea.

          A Pequena Nuvem está um pouco mais distante de nós do que a Grande Nuvem. As duas Nuvens são unidas por uma nuvem "invisível" de hidrogênio. Excluindo as galáxias-satélites da Via Láctea, a maioria das outras galáxias estão a distâncias de muitos milhões de anos-luz de nós.

 

 

Localizar

 

          Para vermos as Nuvens de Magalhães (assim como nossa própria Via Láctea) precisamos ter condições de céu no mínimo "boas". Isso só é possível fora da poluição (especialmente luminosa) característica das grandes cidades. Quem estiver em regiões de céu mais escuro, poderá ter uma ótima visão dessas nossas vizinhas, nos inícios de ano; especialmente em noites sem Lua, pois o brilho do céu fica enormemente diminuído.

          Localize as duas estrelas mais brilhantes do céu: Sirius (alfa do Cão Maior), e Canopus (alfa da Carina). No início de janeiro, em direção ao horizonte sudeste, por volta das 21 e 30 horas, elas podem facilmente ser encontradas. Na direção norte, está a constelação de Órion, o Caçador, onde podem ser vistas as famosas Três Marias, A estrela mais brilhante de Órion; é Rigel. Ela está bem próxima de Sirius. A separação angular entre Sirius e Rigel é mais ou menos dois terços da separação entre Sirius e Canopus, que por sua vez está mais para o Sul.

          E as Nuvens de Magalhães?

         Sirius e Canopus "apontam" para elas. Imagine uma linha reta, começando em Sirius, e passando por Canopus. A uma distancia um pouco inferior à metade da separação entre Sirius e Canopus, medida a partir de Canopus, encontra-se a fabulosa GRANDE NUVEM DE MAGALHÃES! Prolongue mais um pouco, e lá estará, mais fraca, a PEQUENA NUVEM DE MAGALHÃES! E não se esqueça de que são galáxias! Milhões de estrelas juntas devido à gravidade entre elas; e elas por sua vez, presas à gravidade de nossa Galáxia! Veja os mapas abaixo.

 

 

Mapa

 

          Note que durante o passar da noite a posição dos objetos no céu vai mudando. Devido ao movimento de rotação da Terra em torno de seu próprio eixo, nós no hemisfério sul, vemos os objetos no céu girarem em torno do "pólo sul celeste" (ponto para onde o eixo de rotação da Terra aponta).

          Devido aos movimentos combinados de rotação e translação, as estrelas "se adiantam" no céu 4 minutos a cada dia; 2 horas a cada mês; . . .

           Esses movimentos podem ser verificados nos mapas abaixo. Vendo de Minas Gerais o pólo sul celeste fica a aproximadamente 20o acima da linha do horizonte (Essa "altura angular" é dada pela latitude do local do observador). 

           A faixa esbranquiçada nesses mapas corresponde à Via Láctea. A visão que temos de nossa própria galáxia. Interessante observar o seu movimento noturno, semelhante ao de um "limpador de para brisa".

 

 

 

Fotografar

 

          Quem estiver em um local adequado e conseguir ver e fotografar as Nuvens de Magalhães, por favor, mande uma cópia para o Observatório, pelo que desde já agradecemos! Ela será colocada nessa página, com os devidos créditos... E você poderá mostrá-la com satisfação para seus familiares, amigos e professores!

          Como inspiração, vejam a foto abaixo. Ela também ajuda a ter uma visão global da situação, ou seja, apresenta uma visão dos ponteiros Sirius e Canopus, e das Nuvens, numa única espetacular fotografia. (Autor: Akira Fuji. Publicada pela primeira vez na edição de março de 1998 da revista Sky & Telescope. As legendas são nossas.)

 

 


          O João Francisco, nosso colega, astrônomo do Departamento de Física, e em férias em São Gabriel, RS, mandou-nos a foto que fez das Nuvens de Magalhães, na casa de seus pais, na noite de 27 de dezembro de 2005. A foto está mostrada abaixo.

 

 

          Como pode ser verificado, é difícil localizar as Nuvens na fotografia.

         Mostrei ao Renato Las Casas, nosso colega e coordenador do Observatório da UFMG, e ele, em alguns minutos, usando o CorelDraw, um conhecido programa que roda sob MicroSoft, ressaltou as Nuvens, sobre o céu de fundo. O que o Renato fez foi reproduzir a sensibilidade fisiológica do olho humano, que enxerga as intensidades luminosas numa escala logarítmica. Sendo assim, as fracas Nuvens apareceram de forma nítida.

          Quem fizer uma foto com câmara digital, e dispuser deste aplicativo (ou outro equivalente) em seu computador, pode fazer o processamento de sua imagem, para tentar uma melhor visualização. Isto é o que astrônomos profissionais muitas vezes fazem nos seus estudos.

          Vejam o resultado obtido pelo Prof. Renato.

 

 

          Provavelmente, esta última imagem reproduz o que o João deve ter visto a olho nu, mas que não foi capaz de reproduzir com sua câmera.

          A propósito, o João é especialista na Grande Nuvem. Ele fez um texto introdutório sobre a mesma, para uma das escolas de inverno do Departamento de Física da UFMG, que pode ser encontrado numa das páginas listadas abaixo.

  


Veja:

A Via Láctea

Nossa Localização na Via Láctea

A Grande Nuvem de Magalhães

 


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